senciência :: peças de museu

Não é querer ser Pollyanna, de longe, não é nem querer negar o lado escuro da Força, não é querer ser nada mais do que se é. Eu só desejo, do fundo dos meus olhos, ver a beleza, aquela que não é fútil, no mundo. Por que o dark side aparece tão mais atraente, e o tal jogo do contente a coisa mais estúpida do mundo? Porque a escuridão faz parte do que é humano, enquanto sua negação é pura ilusão. E a beleza, que é tão ou mais aguardada que o filme fotográfico que acabamos de levar para revelar, onde ela está? Na era digital, a beleza não é revelada. E ela está lá, bem na nossa frente, e nós não a conseguimos ver.

Ainda fico impressionada com o que presenciei dia desses. O Mercado Público estava mais silencioso que o Museu, mas até aí tudo bem, hoje isso faz sentido. Afinal, trata-se de um museu interativo. O que é fascinante, pois geralmente em museu a gente só pode usar a visão, e através da interatividade a gente pode usar tato, cheiro, tato, som, tato, bate-papo, eu já mencionei tato? E incrivelmente a visão, justo ela, tão requerida outrora em museus, está obsoleta hoje em dia. Afinal, podemos fotografar. Há muito para se fotografar. Eu disse fotografar? Desculpe, digitalizar. Há tanta coisa para digitalizar. Que alegria será o dia em que tudo puder ser encontrado num buscador na internet, não é?! Imagine, “perdi minhas chaves de casa, onde estão?”, digito no buscador da internet e ele me diz “estão ali, encima do sofá, defronte a televisão”, e zapt! encontramos as chaves. Há tanta coisa para digitalizar.

Mas voltemos ao museu e ao silêncio, nele, ausente. A ausência do silêncio seria fascinante, caso substituísse aquele vazio e aborrecido silêncio de museu que só se pode usar os olhos. Mas eu continuo me perguntando o que era aquele não-silêncio lá naquele museu interativo. Era muito tato, quase tudo se podia pegar, mexer, articular, e quantos botões para acionar! Se quando se é criança um elevador pode ser um laboratório de ciências, pois imagine um museu inteirinho de botões! Mas voltemos à visão. Lá, a visão está obsoleta. Onde, lá? Pois lá, aqui, ali… A questão é que o lugar é agora. E as pessoas, por aí, tem medo de viver nesse lugar, esse espaço-tempo do agora. Lá no museu interativo, onde se pode ir além da visão para não só apreciar, mas para também poder apreender, a visão está infelizmente obsoleta, pode-se acionar tantos botões, inclusive o da câmera. Afinal, há muitas coisas para se digitalizar. Mas para que servem os botões? Por que eles estavam ali? Por que eles provocaram aquelas ações nas peças do museu?

E as crianças, logo elas, cientistas revolucionárias mesmo num elevador, deixaram para viver o museu interativo longe dali, através do movimento paralizado, suas digitalizações constantes e incansáveis, “cada peça é um clique”, aquela coisa estética que representa uma ilusão, a maior ilusão: a imagem estática. A ilusão de que as ondas param no ar. E mesmo nos pólos, mesmo que congelada, água nunca está parada.

Por isso, eu reivindico: onde está a beleza, aquela que não é fútil, do mundo? O mundo está mudo. Sem agora, sem ágora.

Tiro a luz da caixa quadrada do mundo para ver as cores iluminadas do planeta.

Menos mundo e mais planeta.
Ter menos, ser mais.
Ser humano.

Lição aprendida.
(ASM)
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