Um poema ao relento ou memórias de remela

ASM


As lembranças que outrora alegravam os dias,
hoje são avantesmas.
Essa coisa maniqueísta que é a memória de um ser que ama…
– o oásis se correspondido;
– a miragem se desprezado;
– o deserto se esquecido!
Se antes só aboscava,
hoje é só em emboscada.
Mas para o desiludido
o poema, mesmo que bestial,
tem um poder maior que o da lágrima,
mais forte que aquele soco na almofada,
Algo deveras crucial.
O poema tem um quê de desimpedido
Uma alforria,
nem sempre pra alegria
mas daquela alergia,
daquela tristeza contida,
de uma branquela franzina.
Um poder de sacudir
Uma buzina pro bar da esquina
(ou pro trago na cozinha)
Ou então fica o tango adiado
e o grito contido,
o ar suprimido,
no coração comprimido.
Mas o poema verte
e o sorriso escapa num descuido!
Se não foi por contentamento à vida
– num dar-se conta de que nem tudo termina
como num romance de William
(ufa, salvaram-se todos!) –
é pela descoberta da burleta
de palavras escorridas num papel sem caneta
da dor de um coração sofrido
que por outras lembranças do vindouro
ainda não foi preenchido

(ASM – Porto Alegre – que despropósito para um deprimido! –, 2007)

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Um comentário sobre “Um poema ao relento ou memórias de remela

  1. Certa vez um amigo disse que, vendo entrevista de certo compositor, ouviu desse que a poesia só verte depois do sofrimento passado. Que era impossível estar deprimido, triste e escrever.Não sei se estavas deprimida quando escreveu, mas tua poesia teve propósito. Despertou em mim espanto eufórico pela genialidade – sem rasgamentos – e um tremor de diafragma convertido num lacrimejar que busca sentido até agora.

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