senciência :: mais vale um louco Viamão que um chato Siberiano

Mais um dia na Lojinha do Museu, ainda que não daqueles que começam com mais do mesmo; a manhã foi inaugurada com uma conversa com o artista colombiano José Antonio Suárez Londoño. Eu devia ter suspeitado, tinha magia demais no trabalho dele e eu estava muito à vontade. Alguma coisa estava estranha, desencaixada. Prenúncio de autenticidade.

Um casal na Loja. Só eles. Eles e uma imensidão de perguntas que não davam chances a respostas. O mais provável é que falássemos idiomas diferentes, mais honestamente, frequências vocais extremamente distintas; eu não entendia as perguntas, até suspeitava que não fossem perguntas, e eles não ouviam respostas.

Eles eram pura endorretórica, se é que isso existe, tanta palavra na cabeça que vazavam sílabas, escorridas por suas bocas.

Quantoehacamiseta?
Queres ver?
nhrnnão.

Mas é importante salientar, o tom de voz do Senhor não se alterava. Os gestos dele eram curtos, mantinham distância, a voz é que serpenteava. Ele então folheia o catálogo da exposição Paisagens de dentro, de Iberê Camargo.

Tem algo mais barato, tem algo de vinte pila, tipo isso, será que é bom, será que ela vai gostar, ela que entende, não sei, não gosto.
Bom, senhor, por vinte e cinco Reais nós temos o livro Gaveta dos Guardados, escrito pelo próprio Iberê.
Deixa eu ver. Ah, mas não tem nada, não, não gosto.

A Senhora, que estava com fome, entre uma confissão do esposo de desgosto pela obra do gaúcho de Restinga Seca e uma confissão sua de sua condição desnutrida, dizia:

Ah, mas é bom, é bonito, ele é importante…

Os gestos dela eram longos e incisivos, seu corpo também fazia parte da loucura coletiva que estávamos vivenciando naquele momento, que bem podia ser tema pr’uma cena de Pedro Almodóvar.

Então chega a Destinatária do presente.

(Ah, no fim das contas decidiram comprar o catálogo da exposição, o de vinte pila, e com plástico mais fechadinho, que é pra dar legitimidade ao codinome “novo”.)

A Destinatária chega, eles entregam, ó, pra ti, mas nem precisa abrir, é esse aqui ó, que já tá aberto. Mas será que tu vais gostar? Hum, tem esse aqui, eu não tinha visto esses aqui, só cinco pila a mais e bem mais grosso, por cinco pila vale a pena, não quer trocar, hein, acho melhor, só cinco pila a mais. Eu não sei, tu que entendes, tu é que é arquiteto, que sabe das coisas, respondeu, já largando o mais barato e pegando o de cinco pila mais caro.

Do nada (como o ciclista que aparece do ponto cego do retrovisor – estou a repetir o que dizem os motoristas, de minha parte sou só ciclista), a Senhora pega uma camiseta, tu não quer uma camiseta, olha a camiseta! Aqui é bom salientar que era uma senhora de palavra, daquelas em que cada palavra gera necessariamente uma reação correspondente e imediata. Quando dei por mim, eu estava mostrando uma outra opção de camiseta, que a destinatária queria ver, e de novo do ponto cego as palavras de efeito estavam a vestir a moça. Eu quero a camiseta pra andar de bike, adoro andar de bike, sempre ando de bike, Será que serve?, Veste, melhor provar! Será que a preta ou a branca?… É pra andar de bike, o que tu preferes, me dá tua opinião, tu que sabe, é arquiteto. Uma outra pessoa já havia surgido, Amiga do casal. Não sei se todos sabem, mas quando a dor é insuportável, o cérebro apaga. Foi o que aconteceu comigo em alguns momentos, então não sei o que aconteceu. Só sei que, em algum momento, o Casal e a Destinatária – que no fim pagou a camiseta – partiram.

O telefone toca e eu me encontro no meio de um tiroteio silábico: a moça que ficou, de um lado, o casal que partiu, do outro, e a voz da moça, pelo telefone. Seria um diálogo em busca do elevador entre os primeiros personagens, acho eu, não fosse a altura com que pronunciavam as sílabas (para mim tro-te-a-das), dada a distância que precisavam percorrer, interrompidas em minha cabeça pelas sílabas murmuradas ao pé de meu ouvido. Desconfio que a pergunta era pra mim, mas o telefone ricoteou e o ti-ro atingiu a Amiga deles.

E o meu cérebro apagou mais uma vez. Mas o dia foi recompensador. Senão não sobraria energia para contá-lo.

Pela saúde mental de uma vendedora, suplico: se fores maluco, sejas genuinamente, como a insanidade destas pessoas. Assim, a irritação logo dá espaço para a graça, porque não tem escapatória. A originalidade, ainda que absurda e assustadora, é cativante. E é sempre uma honra fazer parte de um roteiro de Almodóvar, mesmo que ele não o tenha imaginado.

(ASM)

*

para Luiza Prokopiuk, cúmplice :)

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3 comentários sobre “senciência :: mais vale um louco Viamão que um chato Siberiano

  1. Bom, o que dizer sobre isso??? So posso chamar por ele: MEU DEUS!!!!!
    O que foi aquilo???? Tentativa de enlouquercer quem estava por perto? Nossa!!!!Quem saiu desse tiroteio foi milagre! Ebaaa sobrevivemos!!! Sobrevivemos??? Bom por algumas horas ficamos tontas e fora de nos mesmas!!!hehehehehehe
    Mas valeu! Valeu???? hehehehehehehehe
    Bjsssssssssssssssssssssssssssssssss

  2. Ana, que bom ler tudo isso aqui (a Gabi me deu a dica do teu blog)!
    E que saboroso este relato!!
    Quero tomar um café com você!

    Igara

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