Lápide

O Mestrado foi uma grande experiência para mim. Por muito tempo tentei encontrar a (minha) verdade e o trabalho não se desenvolvia. Foi justamente quando não tive escolha e precisei encarar a “escuridão” que encontrei uma sorte imensa de luminosidades. Isso eu aprendi em andanças noturnas: o olho enxerga muitas cores na escuridão, só precisa de tempo. E foi assim que a manhã chegou dentro de mim. Preciso dizer que o debate entre minha consciência consciente e meu ego foi fervoroso até o último instante. Até a última página. Não estou liberta do meu ego, e por ter consciência disso é que sinto que nada precisa ser ocultado. Concluir o Mestrado e não seguir, neste momento, no universo ao qual permaneci vinculada desde 2001 às vezes me parece surreal, mas é precaução. Eu hoje sou consciente de uma doença social em mim¹. Não sou, ainda, autônoma². Mas meu coração nunca ficará longe daqui.

A prática meditativa me ensinou que antes da inspiração vem a expiração e foi preciso me libertar de muitas coisas, sentimentos e certezas para concluir esta pesquisa, especialmente sua redação. A escrita travava justamente quando eu temia me revelar. Neste posfácio gostaria de compartilhar que foi preciso chamar ajuda, e com isso fui além de dissertar, pois foi preciso buscar ser mestre de mim. Estou mais consciente hoje do que antes da vivência desta experiência. E por isso existirá sempre um motivo muito forte para voltar, sadia, para a Universidade: gratidão.

Pesquisar e dissertar me encaminharam a transitar por hemisférios: razão e emoção, objetividade e intuição, o uno e o verso. E nestes trânsitos eu me machuquei, porque viver apenas um hemisfério é escuridão (sempre lembro que, no sul, a sombra está na face voltada para o sul). E eu também me curei, aprendi a me curar. Por um bom tempo – e ainda há resquícios – fui como o inconsciente Fernão Capelo Gaivota³, e agora, como ele, estou preparada para pousar.

Aprendi que, assim como num sistema agroflorestal, o mais importante é nutrir as plantas, e então, nesta acolhida solidária, não será necessário usar venenos. Aprendi que amor não é apego, que amor é, em realidade, verbo. Verbo realizável no espaço, pois este amor não tem limites.

(ASM – Porto Alegre, em algum dia de 2010)

_____

Notas:

¹ Referência ao termo “ter” utilizado por Erich Fromm em seu livro “Ter ou Ser?”, de 1976.

² Referência ao termo “ser” utilizado por Erich Fromm em seu livro “Ter ou Ser?”, de 1976.

³ BACH, R. Fernão Capelo Gaivota. Rio de Janeiro, 1974[1970].

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2 comentários sobre “Lápide

  1. Que bom acabar…

    A coisa tem o sentido do título?

    “razão e emoção, objetividade e intuição, o uno e o verso” são mesmo hemisférios? (que para mim tem o sentido de distância e oposição)

    Sabe, gostei muito do teu texto. Eu nunca consigo escrever sobre coisas muito intensas: a intensidade me leva as palavras…
    Mas você se saiu muito bem…

    :D

  2. Oi, Polli!

    Comigo as palavras são a própria intensidade do que eu vivo, o que pode ser bem ruim, porque nem tudo pode ser processado só pelo hemisfério racional. Se a intensidade te leva as palavras, talvez seja bom, talvez indique que estás vivendo intensamente, quem sabe?! Mas esse texto saiu assim por causa da música “No Ceiling”, do Eddie Vedder. Ele praticamente disse tudo que eu estava sentindo, então o resto foi fácil :D

    Eu acredito mesmo que esses conceitos (razão e emoção, objetividade e intuição, o uno e o verso), por serem conceitos, são hemisférios opostos. E por isso não dá pra ficar só num hemisfério, senão tudo fica escuro (por isso a alusão à sombra projetada para o sul no hemisfério sul – é preciso que o sul se volte ao norte para receber luz, e vice-versa).

    Te agradeço pelo incentivo sempre presente! Esse texto eu escrevi há bastante tempo, planejava ser o posfácio da dissertação. Mas a escrita tomou outros rumos e então resolvi deixá-lo aqui no blog como exercício :)

    Beijo grande!
    =]

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