Mestrarado

Há algum tempo, mais precisamente na abertura deste blog, concluí que minha angústia era com prazos, e não com o escrever. Ao entender que a angústia está muito ligada a uma revelação daquilo que nos falta, hoje percebo como o escrever, que é criativo, é uma busca, um cultivo de si. E a busca é um mergulho no desconhecido, na ausência. Antes de escrever, aprendi, é preciso escutar. Esvaziar a mente de suas verdades para preencher-se de outras verdades. A escuta, assim, inicia com o silêncio, com a solidão, pois é sempre o vazio que dá a direção. E como o vazio é um estado, e não uma condição, a todo vazio segue um preenchimento. Escuta e escrita, assim, complementam-se.

“Estar em solidão significa estar consigo mesmo; e, portanto, o ato de pensar, embora possa ser a mais solitária das atividades, nunca é realizada inteiramente sem um parceiro e sem companhia.” (Hannah Arendt, 1958)

Até que o processo seja naturalmente saudável, uma constante vigilância de si é muito importante. Até conseguirmos nos libertar de ilusões, é preciso nos cercarmos de coragem para nos lançarmos ao vazio. A recompensa é o preenchimento autônomo, integral. A liberdade, enfim.

“Há uma alegria serena, silenciosa, que se cultiva no recolhimento, quando a mente nada mais deseja do exterior mas com tudo se contenta; essa alegria está livre de qualquer sentimento egoísta de simpatia ou antipatia. A boa fortuna consiste nessa liberdade, pois ela possui a tranqüila segurança de um coração interiormente fortalecido.” (TUI – I Ching)

Aprendi, neste processo dissertativo, que a criatividade é nosso passaporte para a liberdade. Quando mergulhamos num processo criativo, nossa meditação é ativa, pois aprendemos a nos esvaziar e permitir o preenchimento com aquilo que nos conecta, uns aos outros. Antes parecia um paradoxo para mim que a singularidade pudesse estar ligada ao que conecta tudo e todos. Foi preciso viver para saber :)

Se o Mestrado gera traumas? Eu comecei o Mestrado literalmente com um trauma na mão que escrevo, por um rompimento de ligamento. E, na metade de meu processo dissertativo, o ligamento com o Programa foi rompido. O Mestrado foi, isso sim, um processo de cura de traumas. Este blog fez parte da metodologia de pesquisa. Por isso, agradeço a todas companhias ao longo destes 4 anos de Mestrado (e pouco mais de 2 anos de blog). Eu me sinto como um papel amassado que precisou ser desdobrado para então, com precisão, dobrar-se à vida.

Vida longa e próspera para todos nós :)

(ASM)

Anúncios

2 comentários sobre “Mestrarado

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s