Para além dos limites, o estabelecimento de fronteiras: hospitalidade territorial*

*Texto elaborado a partir de atividade de pesquisa proposta no Curso de formação de mediadores (2011), organizado pela Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul.

A intensificação da relação com o local, após um posicionamento internacional, é uma das intenções centrais da proposta curatorial da 8ª Bienal do Mercosul – Ensaios de geopoética: “[…] a 8ª Bienal do Mercosul está inspirada nas tensões entre territórios locais e transnacionais, entre construções políticas e circunstâncias geográficas, nas rotas de circulação e intercâmbio de capital simbólico” (ROCA, 2011, p.3). José Roca, curador desta Bienal, aponta a improdutividade de uma busca obcecada pela originalidade a partir do “vazio” (pensado enquanto “nada” ), tanto como uma tentativa de diferenciar-se totalmente de outras experiências, quanto como um filtro analítico (correntes na formulação de um projeto curatorial). Em essência, Roca questiona o pretenso isolamento e a ingenuidade da busca pela expressão que não dialoga, questionamento este que resultou em elaboração conjunta dos projetos curatorial e pedagógico. Neste sentido, a 8ª Bienal do Mercosul foi construída em plena busca pelo diálogo, encontro, mistura, em que a originalidade é construída a partir da experiência, que é “[…] um encontro ou uma relação com algo que se experimenta, que se prova” (LARROSA, 2002, p.25).

A criação da Casa M, um dos projetos-chave da 8ª Bienal do Mercosul, resultou numa fusão entre esfera privada e esfera pública. A casa, que no sistema patriarcal é prioritariamente regida pelo princípio feminino – espaço destinado à manutenção da vida: nutrição, descanso, reprodução -, passa a acolher e proporcionar o que patriarcalmente é regido pelo princípio masculino: a presença constante de outros, o encontro entre diferentes, a ação que, na compreensão de Hannah Arendt (2005[1958]), é a fonte do significado da vida humana. Assim, a letra “m” da Casa M, além de significar “Mercosul”, acaba por simbolizar o “m” de Mátria.

A exposição “Eugênio Dittborn” homenageia o artista chileno, nascido em 1943 em Santiago do Chile. A exposição, com curadoria de José Roca, está centrada nas Pinturas Aeropostais – obras em que o artista trabalha desde 1983. Sempre visitantes, estas obras viajam como cartas aos espaços expositivos. Atualmente as obras são criadas a partir de um suporte de lona, mas no princípio eram criadas a partir do papel kraft – papel de embalagem. A embalagem, por sua vez, permanece com/em papel essencial: os envelopes permitem o trânsito e comunicam as viagens já percorridas, além de informações sobre as obras e os processos criativos.

Inspiração, potencial comunicativo, armazenamento de energia, arqueamento do corpo, dobra. Expiração, comunicação do potencial, liberação de energia, expansão do corpo, desdobra. As Pinturas Aeropostais são dobraduras em um sentido inverso das tradicionais dobraduras criadas na China e desenvolvidas no Japão – os origamis. O origami realiza-se plenamente com o papel dobrado, com o plano do papel transformado num objeto em três dimensões que comunica o sentido da obra. As Pinturas Aeropostais, por sua vez, têm seu sentido comunicado através do desdobramento e da planificação da obra, que migra dobrada pelo correio. As dobras são essenciais tanto nas criações chinesas, quanto nas chilenas: são testemunhas ativas da criação. É o desdobrar que permite a um origamista aprender a dobrar o objeto dobrado por outro origamista. É o desdobrar que permite a uma pessoa conhecer as Pinturas Aeropostais. Estas linhas vincadas no espaço são, em verdade, fronteiras. Elas não limitam, elas ampliam.

Durante o Curso de formação de mediadores para a Bienal de 2011, organizado pela Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul, Dittborn afirmou que o principal objetivo de suas obras é o próprio encontro que elas possibilitam entre pessoas e ideias. As obras, que atingem a escala internacional através do deslocamento pelos serviços de correio, dialogam localmente com e através daqueles que a contemplam. Na presente Bienal, suas obras partiram de Santiago do Chile com os destinos Porto Alegre, Bagé, Caxias do Sul e Pelotas.

A Pintura Aeropostal enviada por Eugênio Dittborn especialmente ao Curso de formação de mediadores (figura 1) pode ser tanto uma denúncia da esfera pública atual – um quadro vazio emoldurado pela esfera privada (retratos de anônimos) – quanto a própria possibilidade criativa da esfera pública em si – o encontro de tantos diferentes.

_Figura 1: 8ª Bienal do Mercosul – Projeto Pedagógico – Curso de Mediadores – José Roca, curador-geral, junto à obra de Eugenio Dittborn – 16/06/2011 – Foto: Flávia de Quadros/indicefoto.com

Na exposição “Cadernos de viagem”, com a curadoria de Alexia Tala, há a proposta de deslocamento do processo criativo do atelier para a viagem, numa experiência de “habitar”, de estabelecer vínculos com o contexto (ROCA, 2011). Mateo López, um dos artistas convidados, viajou por vários dias até chegar em seu destino, Ilópolis/RS, onde conheceu tradições históricas da região, famosa pelo cultivo da erva-mate:

Cuando estas fuera, estas ahí pensando en otro contexto, esa sensación de extrañar es muy creativa, activa tus sentidos y es importante trabajar en colaboración con otra gente. Creo que cada lugar donde trabajes ofrece su propia información, la cultura, la gente etc., que absorbes y transformas en otra cosa (LÓPEZ, 2011).

Mateo López Parra nasceu em 1978, em Bogotá, Colômbia. Diversas das suas obras permitem o diálogo entre a leveza e a rigidez da matéria, através do desenho e do papel. Começou seus estudos acadêmicos em 1998 pelo curso de arquitetura e, após o primeiro ano e fascinado pelas possibilidades do desenho, migrou para a escola de artes, na qual se formou em 2003. De certa forma, foi uma migração da rigidez da precisão do traço arquitetônico, que o aprisionava, para a consciência do corpo no ato de desenhar:

A mí me gusta usar estos instrumentos, los colecciono, en cada ciudad que llego busco una papelería. Aprendí a dibujar con ellos de manera análoga y así puedo describir el mundo, a través de modelos, con la unidad de medida, la escala, la proporción, la geometría, la relaciones de forma y función. Tu cabeza en conexión con tu mano está ahí presente, tu cuerpo tiene una relación con esa acción. Tengo que aceptar que mi espalda se ha encorvado con el tiempo, hay que visitar el oftalmólogo regularmente y consentir mucho tus manos (LÓPEZ, 2011).

Tomemos como exemplo as linhas presentes em “Ultima ave migratoria”, de 2004 (figura 2).

_Figura 2: “Ultima ave migratoria”, de Mateo López (2004)

Enquanto coordenadas, representam latitudes e longitudes, que por sua vez organizam o espaço planetário através de uma padronização matemática, pelas quais o próprio sistema de correio aéreo se orienta. Além da referência à possibilidade de migração de informações humanas pelo serviço de correio – simbolizado pelo selo e pelas coordenadas geográficas-, podemos observar uma referência à impossibilidade de migração de aves num planeta que traça rígidas linhas – simbolizada pela ave enjaulada.

Estas mesmas referências podem ser transportadas para outras realidades, como a rigidez das linhas traçadas pelo trânsito de automóveis que impede a flexibilidade e a autonomia migratória do frágil, em relação à máquina, corpo humano. Ou ainda rígidos conceitos que nos aprisionam, impossibilitando nos relacionarmos. As linhas traçadas pelos desenhos em suas obras são desamarradas, libertas e ampliadas em suas possibilidades (FUNDAÇÃO Bienal do Mercosul, 2011, p.82). As linhas que retraçam objetos em obras de Mateo López são fronteiras que possibilitam relações: “Me interesa como se construye una narración pues genera relaciones y evoca imágenes. Ahí encaja bien el dibujo como lo quieras llamar: anotación, reflexión, diario” (LÓPEZ, 2011). Diferentemente dos limites políticos de territórios nacionais, fronteiras são dificilmente cartografadas, frente à mutação e relativização de seus limites. Enquanto os limites traçam prisões, fronteiras são espaços de relações.

As obras de López e Dittborn ultrapassam a representação e as linhas traçadas, percorridas – pelo lápis ou pela dobra, pelo solo ou pelo ar – ativam uma esfera pública, encontros entre diferentes. Assim como nas Pinturas Aeropostais de Dittborn, há um diálogo entre a linha planificada e a obra em três dimensões (figura 3).

_Figura 3: “Notas de campo”, de Mateo López (2011) – Exposição realizada em Ilópolis/RS.

Tanto para Dittborn quanto para López, a simplicidade de recursos (presente nos contextos de seus países de origem) comunica a possibilidade criativa de forma ampla: “Un pedazo de papel es suficiente para mí” (LÓPEZ, 2011). Estes diálogos e simplicidade de materiais também criam obras de complexos significados de autoria de Marina Camargo, nascida em 1980, em Maceió, Brasil.

A artista participa, nesta Bienal, da exposição “Além Fronteiras”, com curadoria de Aracy Amaral, que aborda a subversão dos limites e a fronteira como espaço de encontro. Artistas de diferentes nacionalidades foram convidados a viajar, mas não enquanto descoberta, e sim como encontro, pois “é sabido que tudo o que é descoberto já existia e tinha vida própria” (ROCA, 2011, p.12). Descobertas são, em verdade, desdobramentos.

Artista andarilha, as temáticas de suas obras são constituídas recorrentemente por signos, letras, palavras, o universo visível e o espaço urbano (FUNDAÇÃO Bienal do Mercosul, 2011, p.108). Em sua obra “Atlas do céu azul (Sul da América do Sul)”, de 2007 (figura 4), a partir de uma comunicação entre a fotografia e a cartografia, é interessante observar como os limites geopolíticos perdem seu “poder que limita” através do céu, compartilhado pelos diferentes países.

_Figura 4: “Atlas do céu azul (Sul da América do Sul)”, de Marina Camargo (2007)

Assim como o espaço aéreo, os corpos d’água, geralmente utilizados para demarcar limites políticos, são mutantes. Para Camargo, que viajou por paisagens do extremo sul gaúcho, “o pampa dissolve as fronteiras” (ROCA, 2011, p.27).

Em um mundo em que esfera privada e esfera pública não estão presentes nas vidas de todos, a fronteira política não é a mesma que a fronteira cultural. Enquanto a primeira distingue, separa – porque limite -, a segunda acolhe, hospeda o diferente. O limite que distingue territórios construídos a partir do sistema patriarcal de dominação, como no caso das pátrias, passa a ser substituído pela fronteira que acolhe territórios construídos a partir da criatividade, que é a reciprocidade entre diferentes seres inteiros, embora inacabados – pois em processo de gênese e de autofazimento (BOFF, 2002). O planeta Terra é nossa Mátria, nossa Casa M. Uma casa cuja matéria-prima é a mutação.

Penso numa viagem iconográfica entre Brasil, Colômbia, Chile e China. Um dos livros mais antigos do mundo foi “escrito” sem palavras, a partir de linhas. A mutação é seu principal tema: o I Ching (livro clássico das mutações). A natureza é sua matéria-prima e o equilíbrio dinâmico, mutante, seu conteúdo. O livro fechado, dobrado, permite sua viagem entre os leitores, que o acessam ao desdobrá-lo e ao se permitirem desdobrar. Todas essas obras são, também, geopoéticas.

(ASM)

Fontes das figuras:
Figura 1: Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul
Figura 2: Galeria Casas Riegner
Figura 3: Fundação Bienal do Mercosul, 2011, p. 82.
Figura 4: Marina Camargo

Referências:
ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. 10ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005[1958].

BOFF, Leonardo. A nova consciência. In: MURARO, Rose Marie; BOFF, Leonardo. Feminino e masculino: uma nova consciência para o encontro das diferenças. Rio de Janeiro: Sextante, 2002. p.15-118.

FUNDAÇÃO Bienal do Mercosul. Guia da 8ª Bienal do Mercosul. Porto Alegre: Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul, 2011.

GEOPOIESIS. Geografias cotidianas. Disponível em http://www.geopoiesis.wordpress.com. Acesso em 12 agosto 2011.

LARROSA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. In: Revista Brasileira de Educação, Jan/Fev/Mar/Abr 2002, n° 19. p.20-28.

LÓPEZ, Mateo. Entrevista: Mateo López. Texto por Alexia Tala. Disponível em http://www.bienalmercosul.art.br/blog/entrevista-mateo-lopez/. Acesso em 10 agosto 2011.

ROCA, José. Projeto curatorial da 8ª Bienal do Mercosul. Porto Alegre: Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul, 2011.

WILHELM, Richard (tradução do chinês para o alemão, introdução e comentários). I Ching: o livro das mutações. 20ªed. Tradução para o português de Alayde Mutzenbecher e Gustavo Alberto Corrêa Pinto. São Paulo: Ed. Pensamento, 2002.

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