ex|posição e autor|iz|ação

Somos seres criadores. Enquanto espécie, nossa principal função é a procriação. Interessante como há “criação” dentro desta palavra. E dentro desta há a “ação”. Criança é fruto de criar em aliança. Viver em sociedade é nossa sina, nosso sinal.

As Pinturas Aeropostais de Eugenio Dittborn são crias do céu e da terra. No céu, viajam como cartas. Na terra, viajam como ideias. A mutação é assegurada pela mutação: os envelopes mudam a cada destino, como peles que se renovam; as pinturas mudam a cada novo amigo. Suas obras são sempre visitas, assim como os visitantes dos espaços expositivos. Em exposição, as ideias são imunes à estagnação. Para enrijecer, é preciso esconder. O salvo-conduto das Pinturas Aeropostias é que à dobra se sucede a desdobra.

Ainda assim, é preciso aprofundar-se. No raso, não há quase nada. Há pouco volume externo nas Pinturas Aeropostais – sua estratégia entre dobras e desdobras nos aproxima de uma singularidade. Transitar entre um mundo e outro demanda muita energia – há que se liberar do supérfluo. Para então super fluir.

Para isso, é preciso autorizar-se. Um criador é um autor. Um ser sem autoria resume-se à reprodução. Reproduzir é diferente de criar. Na criação, não há desperdício de energia. Na reprodução, há a redução de seres a órgãos reprodutores. Na criação, há a comunhão de seres inteiros. Produção e criação se diferenciam pela ação.

Hannah Arendt (2005[1958]) nos lembra que a fonte do significado da vida humana é a ação, que depende inteiramente da constante presença de outros. Para a criação de uma criança, é preciso aliança de autorias.

Eu acreditava que era possível aprender sozinho. Mas há prender no aprender. Falto o “e” da experiência, “[…] um encontro ou uma relação com algo que se experimenta, que se prova” (LARROSA, 2002, p.25). Apreender, isto sim, é impossível na solidão.

A própria autorização demanda ação. Demanda encontro. Demanda vínculo. Quando criança, minha criação estava ligada à palavra e ao origami. Pela palavra, autorizei-me em exposição com a criação de estórias aos 10 anos de idade e desautorizei-me com uma humilhação orquestrada por uma professora. Passei, nos anos seguintes, a tentar me dobrar até sumir. Mas para reduzir o tamanho ao máximo, é preciso amassar.

Foi preciso voltar à exposição para me reautorizar. Foi preciso reencontrar a fonte do significado da vida humana. Foi preciso encontrar. Foi preciso agir. A criação deste blog foi uma das estratégias. Encontros virtuais de vínculos reais.

Fazer terapia foi outra estratégia. E é fundamental que o processo de cura seja ativo. Falar e falar faz o ar faltar. É preciso apreender o ouvir. Com o outro, isso é possível; apenas consigo, só se aprende.

Escrever para mim foi o início, mas a catarse foi o escrever enquanto diálogo. Com pausas para ouvir. Longas pausas. Foi preciso exercer a atividade de vender para retirar a venda, para ver com mais clareza. Trabalhar num cubo branco e encontrar tantas cores, tantas vozes. Escrever a dissertação de mestrado foi uma legítima ação para dizer. Para conversar. Para me autorizar. Para agir em autoria. E a participação de quatro professores foi essencial nesta ação.

E o origami? A autorização veio com o desdobramento através da experiência de mediação na mostra Eugenio Dittborn. O primeiro ensaio de autorização veio pela exposição de um mapa poético que fiz num momento em que a espontaneidade encontrou espaço para respirar. A celebração orquestrada por dois professores foi plena autorização, seguida pelo reforço autorizante de outra professora. A celebração coletiva foi ação de autoria. Celebrar a autoria do outro é permitir-se autoria, pois ela existe na relação. Na real ação.

E por que, diante de tantos encontros com tantos outros humanos, destacar a figura do professor?

“Bem, um professor tem uma atividade que deriva do Latim professus, ‘aquele que declarou em público’, do verbo profitare, ‘declarar publicamente, afirmar perante todos’, formado por pro-, ‘à frente’, mais fateri, ‘reconhecer, confessar’. Trata-se de uma pessoa que se declara apta a fazer determinada coisa – no caso, ensinar.”

(Origem Da Palavra – Site de Etimologia)

O professor que estimula o encontro é um vinculador de essências. É um catalisador de ação.

(ASM)

___

Referências:
ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. 10ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005[1958].

LARROSA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. In: Revista Brasileira de Educação, Jan/Fev/Mar/Abr 2002, n° 19. p.20-28.

Site Origem da Palavra. Disponível em http://origemdapalavra.com.br/palavras/professor/

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