Causa e e(fé)ito

As ações feitas em silêncio – embora nunca em solidão – são as que movimentam o planeta, literalmente.

Um exemplo é a força invisível e implacável que é a eletromagnética. A gravidade está sempre aí, sem nenhuma necessidade de afirmação. Existe, e é isso. E o vento, de que só percebemos suas evidências em manifestação? Até se pode comprovar com aparelhos, mas os resultados dos aparelhos são sempre representações do fato, não são o fato. Sempre há fé envolvida, mesmo na ciência.

Depois de 10 anos envolvida em pesquisas, aceito enfim a fé que sempre esteve envolvida. As constantes crises pelas quais passei durante a vivência acadêmica, agora eu penso, eram crises de fé. Eu não tinha fé na vida, muito menos na ciência. E sempre há fé envolvida. Mesmo na minha falta de fé, eu me afetava. Acho que falta afeto quando há falta de fé. Sem afeto na academia, eu não podia sentir fé na ciência. Mas havia uma fé na própria crise, será?

No fim das contas, a minha fé na ciência sempre esteve presente. E a fé na vida também. Era tudo uma questão de ponto de vista, um pequeno e essencial desajuste entre a fé que tenho na vida e a fé que tenho na ciência. Como se fossem duas forças opostas num cabo de guerra. Mas eis o pulo do gato (de Schrödinger): quando se trata de algo infinito, não há pontas. Infinito não tem começo, nem fim. E sendo seres infinitos, basta ajustar o ponto de vista, a consciência no eixo. Por isso é importante estar “com” na “ciência”. Tudo está conectado.

Se há algo realmente precioso que aprendi na Geografia, é a consciência multiescalar da realidade. Não há laboratório, não há isolamento possível, o laboratório é o mundo. Depois disso, é realmente muito difícil acreditar que uma verdade é toda verdade. Tudo é contexto. Consciência do contexto. Ciência e texto sem o “com” produzem meias mentiras que iludem meias verdades. A fé é a consciência de que há sempre algo além de nós e dentro de nós. É a percepção do infinito. É a chave para o fim da ilusão do cabo de guerra. Dar cabo da guerra, sem cabos nem generais.

Mesmo na Universidade, os maiores mestres que tive foram os mais silenciosos, os mais discretos. E ainda assim, os maiores. Desconfio que eles sabem do infinito, pois eles nos afetam com afeto. E despertam nossa fé.

(ASM)

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