Tetis 6: Em quarta dimensão, do quarto à carta

De um dos professores que me ensinam a dialogar, li grandes imagens. Memórias do quase nada. E fui em busca de linhas que registrei na infância. Foram poucas, e a maioria de desabafo, desesperos abafados na experiência. Os registros da minha infância não são de muita poesia. Ao imaginar as palavras do professor, tão carregadas de experiência, compreendi melhor o papel da palavra em minha vida – especialmente na experiência de torná-las públicas na fatídica quarta série do ensino fundamental. De sufocá-las no medo registrado em diários. Territórios. De libertá-las no exercício poético em ambiente acadêmico. Ambiências.

A quarta dimensão é a do tempo, a dimensão do movimento, cujo registro só pode ser feito a partir do passado. Registro que é tempo parado de experiência passada. Importantes foram as experiências que vivi que me levaram ao registro. Este, no entanto, passou a ser representação da minha própria experiência. E tudo confundi. A incompreensão levou-me à fragmentação, à territorialização de minhas experiências.

As estórias que passei a escrever na infância não eram História. Em uma viagem escolar que as precedeu, era eu espontaneidade dramática, uma criança criativa. Inventava jogos, que, sem pretensão, envolvia os colegas. Eu era então um centro onde as brincadeiras orbitavam. Aquela felicidade, vivida no tempo, era um néctar divino. Mas o tempo, logo entendi, era fugaz, era mais do que isso, era instantâneo. Era um não-lugar que era todo-lugar.

Era experimento saboreado, e mortal. As estórias que passei a escrever, depois, não eram História. Mas passaram a representá-la; num disfarce, eu pretendia enganar os deuses e tornar aquele sabor imortal. Com as estórias, eu queria beber o néctar da imortalidade do ego: a segurança do elogio do outro. Os limites bem definidos, territórios de afeto. Seriam meus colegas e minha professora a fonte divina. Minhas estórias, meu disfarce de divindade.

Por uma pequena ingenuidade da pueril escritora, as divindades perceberam meu embuste. A ficção brota da realidade, e para que esta não a ameaçasse, bastaria ficcioná-la. Assumir a representação. Mas eu queria a imortalidade real. E, assim, usei os nomes reais em estórias fictícias. Era eu a serpente mortal, o dragão que, ao entrar numa festa de seres divinos, buscava o reino imortal. Era eu infanta. Filha do rei, que também era eu, que não herdaria a coroa – minha cabeça, cortada, não lhe asseguraria assento. Minha garganta, por onde as estórias ganharam título de História, foi cortada pela professora. Histórias fatídicas. Ao beber daquele néctar, a esquizofrenia imortalizou-se em mim. Era eu Rahu, a cabeça nas alturas. E era eu também Ketu, o corpo que atingiu a terra e a fragmentou.

Passei a infância e o adolescer aspirando a biologia, a vida nos mares. Em algum lugar em mim, havia uma busca. Não eram os mares, mas as marés que me atraíam. Eram as marés que eu precisava compreender. A dança entre corpo e cabeça. Sem muito pensar, fui geografia estudar. Ainda fragmentados, Rahu e Ketu viveram a graduação em crise. Geografia Humana e Geografia Física. E a busca continuava, não por um outro curso, pois este continuava a ser navegado. A busca era por sua fluidez, que encontrava barragens em sua fragmentação. Ora mente, ora corpo. Fragmentos.

Este texto é uma conversa com Camila. Uma conversa a três. Uma criação. A conexão entre singularidades, que cria. Ambiências. Ano do Dragão, conexão entre corpo e mente. Com Camila, percebi que minhas melhores palavras foram escritas em cartas. As melhores palavras eram, em si, experiência. Camila foi a amiga adulta que compartilhou o gosto pela palavra experenciada desde a infância: a carta. Agora compreendo que fiquei com as piores palavras, os desabafos nos diários, e cultivei as melhores em cartas semeadas para amigos. Uma forma de publicar, privadamente, as palavras. Foi esta amiga, Camila, quem percebeu primeiro: meu gosto pelo quase nada era grande. A poesia não estava, fico feliz em saber, ausente.

Na busca pelo maestria de mim, cursei o mestrado de garganta cortada. As palavras não passavam de cortes. A culpa vinha da inconsciência da fragmentação. Após quatro anos, terminei a escrita dissertativa. De novo o quatro, a quarta dimensão. A expressão do movimento. A expressão do trabalho. Da conexão entre o privado, do quarto, e o público – através do quatro. O quarto que se tornou quatro através da arte, da criatividade, o três. A experiência, que surgia bienalmente na cidade, que vivi ao findar o quarto ano da pós-graduação. A experiência expositiva de cartas. As pinturas aeropostais que, cartas desdobradas, viraram jogo real. Castelo de príncipes e princesas sem coroas e muitas gargantas em conexão de palavras.

Uma conversa a quatro. Em quarta dimensão – mutante, fluida -, do quarto à carta, a experiência do vínculo. O orientador na maestria, professor, ensinou-me através da experiência do vínculo. Ironicamente, de suas ideias vinculares havia pouco registro.

Daquele momento público, não tenho muitos registros. Se todos viviam a experiência, sua limitação – o registro, a representação – não ganhava energia. Por isso foi tão energizante a experiência. A partir de uma carta, a dissertação, uma conversa a muitos. Os professores, os amigos, a família. Os vínculos. Por isso aquele espaço era ambiência, e não território. Os protocolos foram esquecidos, a criatividade estava aquecida. Não era uma defesa de mestrado, era uma roda de chimarrão – a serpente integral, conectiva, através do que flui pela garganta e aquece o corpo.

Adoeci ao tentar prender a arte naquele quarto ano do ensino fundamental. Voltei à vida naquele quarto ano do ensino pós-graduado, sem pretensões imortais. Era mais, era uma carta àqueles com quem eu não conseguia me comunicar. Na infância, a escrita foi uma tentativa de privatizar o público, a experiência vivida coletivamente a partir da minha espontânea criatividade. Uma prisão. A publicação do privado no texto em vida adulta foi um desprendimento das dificuldades encontradas, um assumir da mortalidade. Um convite.

E um dos professores que me ensinaram a dialogar a partir do convite conciliou Rahu e Ketu em mim: “uma artista, que é isso que tu és”. Mas não foi ali que esta conciliação foi feita, naquela roda. Ela foi feita hoje, ao conciliar o professor que eu conheci com o artista que convivi através de suas palavras. Geopoéticas dialógicas. Tão grande quase nada.

(ASM)

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