Niti iii

DO AMOR AO PRÓXIMO

Vós andais muito solícitos em torno do próximo e o manifestais com belas palavras. Mas eu vos digo: o vosso amor ao próximo é vosso mau amor por vós mesmos.

Fugis de vós em busca do próximo e gostaríeis de converter isso numa virtude. Mas eu firo à luz do dia vosso “desinteresse”.

O Tu é mais antigo que Eu. O Tu foi santificado, mas o Eu ainda não. Por isso o homem anda diligente atrás do próximo.

Acaso vos aconselho o amor ao próximo? Antes, vos aconselho a fuga do “próximo” e o amor ao remoto!

Mais elevado que o amor ao próximo é o amor ao longínquo, ao que está por vir, mais alto ainda que o amor ao homem coloco o amor às coisas e aos fantasmas.

Esse fantasma que acorre a ti, meu irmão, é mais belo que tu. Por que lhe não dás tua carne e teus ossos? Mas tens medo dele e procuras refúgio junto de teu próximo.

Não vos suportais a vós mesmos e não vos amais de modo suficiente. Desejaríeis seduzir o próximo por vosso amor e dourar-vos com seu erro.

Quisera que todos esses próximos e seus vizinhos se tornassem insuportáveis para vós. Assim teríeis que criar para vós mesmos o vosso amigo e seu coração transbordante.

Chamais uma testemunha quando quereis falar bem de vós e logo que a haveis induzido a pensar bem da vossa pessoa, vós mesmos pensais bem de vossa pessoa.

Não só mente aquele que fala contra sua consciência, mas sobretudo aquele que fala contra sua inconsciência. E assim falais de vós no trato social, enganando o próximo e a vós mesmos.

Assim fala o louco: “O convívio com os homens estraga o caráter, sobretudo quando não se tem caráter”.

Um procura o próximo porque se procura a si mesmo; outro porque gostaria de se perder. Vossa malquerença por vós mesmos converte vossa solidão num cativeiro.

Os mais afastados são os que pagam vosso amor ao próximo e desde que vos reunis em cinco, um sexto é que vai morrer.

Também não gosto de vossas festas. Nelas encontrei demasiados comediantes e os próprios espectadores se comportam muitas vezes como comediantes.

Não vos ensino o próximo; mas o amigo. Que o amigo seja para vós a festa da terra e o presentimento do Super-homem. Eu vos ensino o amigo e seu coração transbordante. Mas é preciso saber ser uma esponja quando se quer ser amado por corações transbordantes.

Eu vos ensino o amigo que leva em si um mundo disponível, um invólucro do bem, o amigo criador que tem sempre um mundo disponível para oferecer.

E como para ele o mundo desenrolou seus anéis, assim para ele os enrola novamente, como se o bem fosse produzido pelo mal, os fins pelo acaso.

Que o futuro e o remoto sejam a causa de teu hoje. Em teu amigo ama o Super-homem como tua origem.

Meus irmãos, eu não vos aconselho o amor ao próximo; aconselho-vos o amor ao longínquo.

Assim falava Zaratustra.

(Assim Falava Zaratustra, Friedrich Nietzsche)

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