ouvido agudo no obtuso silêncio

Ainda que peçam tua opinião,
prepara-te:

Não coincidindo com o que desejam,
ainda que sintonize no que sintam,

Por medo podem pedir:
– cala-te!

De forma doce ou não.

Silencia tua voz,
sem deixar de ouvi-la

(ASM)

discurso.descurso

a sensação de que fiz o mais difícil
e o tudo ficou com os outros
inclusive o que mudou

com empregos, dinheiro, status quo
e ainda com justificativas
para extravasar o mau humor

a sensação de ter feito o certo
e o certo ser usado para maquiar o medo

mas o medo só acaba
quando o íntegro lhe ocupa o espaço

o resto é briga, raiva reprimida

os outros, percebo, não ficaram com tudo
só se o tudo fosse o nada

tanto discurso, sem alterar o curso

e o resultado de tudo isso,
ainda que eu esteja firme no que fiz,
é tristeza

(ASM)

Coragem é raiz de autor

Fiz o que fiz
porque era o que era
pra eu fazer

Foi coragem?
não saberia bem dizer
mas vamos ver:

A “coragem”,
raiz latina que é cor,
de coração,

colorida,
é a ação daqueles que,
com cor, agem

A coragem
é o fazer que é simples:
ser quem se é

Difícil é
fazer o que o coração
não quer fazer

Corajoso
não merece placa, nem quer,
pois só o é

E em vez de
“se ele fez, estou livre
de o fazer”

É ver, sentir
no profundo de cada um
“eu posso ser!”

Autorizar:
eis a função da coragem
lhe ensinar

(ASM)

30ª viagem pelo Sol nesta dança cósmica \\//_

Desejo a todos esta alegria compartilhada do devir vivido, que pode ser com amores-amigos, mas que começa consigo :)

Vida longa e próspera \\//_

A curva do rio

Sorriso que é horizonte,
curvo na fonte!

E eu já sorrio quando o fim ainda está distante
porque a jornada toda me encanta…

E meus lábios percorrem o sorriso
daquela alma que sorri para si e adiante

E sentam
E se assentam
E beijam

E os olhos cantam

(ASM)

Pesquisa que pesca canção

Enquanto minha pesquisa for resultado
No quanto sou capaz de julgar,
Silencio minha palavra
Que só sabe machucar

E quando eu souber escrever em prosa
O que minha alma aprendeu a poesiar,
Volto à Academia para pesquisar
Porque finalmente saberei cantar

Como um sabiá

(ASM)

Em cima, Pesquisa e Exaustão

Vencidos pelo cansaço
da autoria que não será lida
– talvez pela banca, talvez pela tia

Talvez seja preciso
gastar muita energia
para permitir a poesia

na pesquisa

Talvez seja preciso
sofrer de anemia
para lembrar que é sangue
o que pulsa, Academia.

(ASM)

Em si

Que trabalho dá,
do amigo perdido,
o amor relembrar

Mais eficiente é estar
na beleza do mundo
e aguardar, sem esperar

Não é preciso prender
nem ter medo de perder
o que o Em si já vê

(ASM)

E só quando todos me houverdes renegado quero voltar para vós. Na verdade, meus irmãos, então procurarei com outros olhos aqueles que perdi. Então vos amarei com outro amor.

Friedrich Nietzsche, “Assim Falava Zaratustra”.

Sem gato gago, é Bach no cravo!

Semana passada, o cravista Fernando Cordella compartilhou um evento na vida de J.S.Bach que me fez refletir bastante. A historinha é mais ou menos assim (com toda licença dramática que eu me permito, rs):

O Bach, novucho, era tri fã do trabalho de Dietrich Buxtehude. Bach ficou sabendo de um último concerto do músico, que já tava velhão, e pensou “bah, certo que eu tenho que ir!”. A distância dali até Lübeck, na Alemanha, equivale a mais ou menos a de Porto Alegre a Torres.

E Bach foi.

A pé!

Chegou lá na hora do concerto. Assistiu e depois conseguiu conversar com o Buxtehude, que pediu para ele improvisar um pouco e o Bach, danado que só, arrebentou a boca do balão. Bom, o cara (considerado um dos maiores do período barroco alemão) ficou absurdamente encantado com o virtuosismo do guri.

Como os empregos eram herdados naquela época e Buxtehude tava pendurando os dedos, Bach foi convidado na hora para assumir seu cargo de gerente geral (Werkmeister) e organista.

E assim, era o MELHOR emprego que um músico poderia querer naquela época.

o MELHOR salário

a MELHOR orquestra

o MELHOR lugar para se estar

Beleza, né?

Tá, daí o cara convidou o Bach para dormir lá, não ia fazer o guri voltar tudo a pé. Enquanto eles acertavam o contrato, veio uma condição.

Para assumir o cargo, Bach teria que se casar com a filha dele.

No dia seguinte, Buxtehude foi ao quarto que Bach estava alojado e só restava uma janela aberta, o guri fugiu que foi um risco! hehehe! Parece que, tempos depois, Haydn passou pelo mesmo processo. E a rapariga continuou encalhada e o o cargo em aberto.

O que eu mais fiquei pensando sobre tudo isso foi: Bach não se permitiu iludir com um destino que, parecendo o melhor, diminuía sua integridade interior. E nem ficou de mimimi, essa coisa de gato gago, foi logo embora daquela enrascada. Mesmo tendo caminhado tanto para chegar lá!

Não é para onde se vai, mas a consciência de que se é capaz de andar! Assim, ele pôde caminhar de novo ^^

E bah, era o Bach!

Sem gato gago, é Bach no cravo!

(ASM)

O que é grande no homem é ele ser uma ponte e não uma meta. O que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um declínio.

Friedrich Nietzsche, “Assim Falava Zaratustra”.