Escravos de (dese)Jó

A geopoética em sala de aula de ontem foi muito interessante. Brincamos de “Escravos de Jó”, uma interessante brincadeira para experenciar atenção, ritmo, coletividade. No clima “Tênis versus Frescobol” a la Rubem Alves (belo texto aqui), os estudantes perceberam o quanto a falta de cooperação e, principalmente, o descuido com o outro (atenção que deveria ser consigo dispersada ao próximo, vulgo fofoca) atrapalha.

Começamos manufaturando as peças do jogo: balão/cubo de origami, modelo tradicional:

Uma das vantagens deste modelo é sua relativa facilidade de execução, além do quesito poeticamente “mágico”, o sopro. Dependendo do grau de perseverança de cada um, a vontade de desistir aparece, especialmente no passo 11. Aí vem outra vantagem, que é o de exercitar o encorajamento, pois com cuidado e atenção, todos conseguem fazer. Outra vantagem é a fragilidade do objeto, ao final.

Após cada um montar o seu cubo, sentamos em roda em uma grande mesa (poderia ser no chão, também). Revelei, então, que o jogo era este:

Mesmo com uma turma tão querida, as dificuldades logo apareceram. O que foi ótimo! Cada um pôde experenciar o fracasso do egoísmo e da fofoca (quando se preocupavam em julgar “quem errou”, ao invés de se preocuparem com a própria importância na roda), pois no fundo a vontade era de que a roda rodasse. Escravizados pelos seus desejos inconscientes (manipulados pelo ego), adiavam suas vontades despertas. Cada um era o próprio cubo, com vontade de ser esfera. Levamos a tarde toda para aperfeiçoar as arestas.

O Grito (“Skrik”, 1893), de Edvard Munch

Quando o tumulto aparecia, eu me afastava da roda e aguardava. Aos poucos, eles se acalmavam. O que eu percebi foi o comportamento automático, o hábito da briga. O hábito é uma ação não consciente, um dormir acordado. O meu silêncio funcionava, mas às vezes era preciso chamar suas atenções para o momento presente, para o acordar consciente. O grito funciona. Mas às custas das minhas cordas vocais e dos tímpanos alheios! Então, no fim, não funciona. Se alguém souber de uma forma de convidar (e não impor) as pessoas ao momento presente, fico muito grata pela informação!

Entre as primeiras tentativas, o intervalo (recreio) e o fim da experiência, conversamos sobre os conflitos territoriais envolvidos. A brincadeira não teve êxito, mas a experiência geopoética foi além das expectativas! Conversamos sobre o cansaço mental, a dor de cabeça com tanta gritaria, a impaciência com o outro e a necessidade de respeito (por enquanto, no âmbito da tolerância). Aqueles que se retiravam, no aguardo do retorno ao respeito coletivo, experenciaram a provável angústia do orientador/professor. Foi fascinante!

E a experiência foi fascinante para mim, pois, ao me retirar, consegui não abandoná-los. Apenas aguardava. Não me estressei. E quando eles conseguiam ficar presentes, continuávamos juntos. Nos momentos mais críticos, conversamos sobre o estado dos frágeis cubos de origami. Estavam amassados, feridos, desconfigurados. Um fiel retrato do estado de nossa coletividade :)

A brincadeira tem ainda mais dois níveis de dificuldade, que é fazer a roda e cantarolar (sem letra, mas com as mesmas orientações) e também em silêncio. Quem sabe numa próxima!

Vida longa e próspera!

(ASM)

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cartão pessoal para o pessoal da oficina criativa

e foi tãaaaaaao boa a experiência! ^^
muita graça pra Equipe Educativa do Santander Cultural e pra tod@s que participaram das oficinas!

programação de verão no Santander Cultural
programação de verão no Santander Cultural
tsurus (modelo tradicional)
borboletas (modelo de Akira Yoshizawa)
coelhos (modelo tradicional)

Percursos relacionais

Para a aula do dia 22/6 do curso de formação de mediadores da Bienal, os educadores Luiz Guilherme Vergara e Jessica Gogan propuseram que materializássemos uma narrativa do percurso do nosso quarto até o curso (cartografar este caminho e construir uma espécie de mapa de afetos). Utilizei a linguagem do origami e não imaginava que traria um resultado tão legal! Fiz de uma forma prazerosa e com a autorizada subversão (eu me autorizei, mas os educadores a ratificaram!). No fim a turma quis que eu compartilhasse a experiência, foi uma honra e uma dose altíssima de estímulo, sou muito grata! Não tive tempo de registrar, felizmente encontrei esta foto no banco de imagens da Fundação Bienal do Mercosul:

>> texto Percursos Relacionais

>> diagramas: rosa de Kawasaki (em planta do Centro de Porto Alegre, que me ajudou a representar suas intermináveis lombas!), carro, beija-flor de William Gilbert, lírio de Zülal Aytüre-Scheele.

(ASM)

Caledociclo

No curso de formação de mediadores para a 8ª Bienal do Mercosul – Ensaios de Geopoética (Fundação Bienal do Mercosul) -, foi-nos solicitado fazer uma avaliação do curso até agora. Optei por assim materializá-la:

Avaliação do curso de formação de mediadores da Bienal do Mercosul

>> diagrama de Fusé

(ASM)