Oricicle

Cortada, árvore que se desprendeu,
pendeu ao chão o que procurava o céu

Em folhas de papel, no acariciar de outras mãos,
o trançado plano retoma dimensão

Papel dobrado é árvore que se procura
reconhecer no chão

Origami é feito da generosidade
do que nasceu majestade

Lembra, dobrado, que o que é árvore
não deve ser cortado.

(ASM)

Escravos de (dese)Jó

A geopoética em sala de aula de ontem foi muito interessante. Brincamos de “Escravos de Jó”, uma interessante brincadeira para experenciar atenção, ritmo, coletividade. No clima “Tênis versus Frescobol” a la Rubem Alves (belo texto aqui), os estudantes perceberam o quanto a falta de cooperação e, principalmente, o descuido com o outro (atenção que deveria ser consigo dispersada ao próximo, vulgo fofoca) atrapalha.

Começamos manufaturando as peças do jogo: balão/cubo de origami, modelo tradicional:

Uma das vantagens deste modelo é sua relativa facilidade de execução, além do quesito poeticamente “mágico”, o sopro. Dependendo do grau de perseverança de cada um, a vontade de desistir aparece, especialmente no passo 11. Aí vem outra vantagem, que é o de exercitar o encorajamento, pois com cuidado e atenção, todos conseguem fazer. Outra vantagem é a fragilidade do objeto, ao final.

Após cada um montar o seu cubo, sentamos em roda em uma grande mesa (poderia ser no chão, também). Revelei, então, que o jogo era este:

Mesmo com uma turma tão querida, as dificuldades logo apareceram. O que foi ótimo! Cada um pôde experenciar o fracasso do egoísmo e da fofoca (quando se preocupavam em julgar “quem errou”, ao invés de se preocuparem com a própria importância na roda), pois no fundo a vontade era de que a roda rodasse. Escravizados pelos seus desejos inconscientes (manipulados pelo ego), adiavam suas vontades despertas. Cada um era o próprio cubo, com vontade de ser esfera. Levamos a tarde toda para aperfeiçoar as arestas.

O Grito (“Skrik”, 1893), de Edvard Munch

Quando o tumulto aparecia, eu me afastava da roda e aguardava. Aos poucos, eles se acalmavam. O que eu percebi foi o comportamento automático, o hábito da briga. O hábito é uma ação não consciente, um dormir acordado. O meu silêncio funcionava, mas às vezes era preciso chamar suas atenções para o momento presente, para o acordar consciente. O grito funciona. Mas às custas das minhas cordas vocais e dos tímpanos alheios! Então, no fim, não funciona. Se alguém souber de uma forma de convidar (e não impor) as pessoas ao momento presente, fico muito grata pela informação!

Entre as primeiras tentativas, o intervalo (recreio) e o fim da experiência, conversamos sobre os conflitos territoriais envolvidos. A brincadeira não teve êxito, mas a experiência geopoética foi além das expectativas! Conversamos sobre o cansaço mental, a dor de cabeça com tanta gritaria, a impaciência com o outro e a necessidade de respeito (por enquanto, no âmbito da tolerância). Aqueles que se retiravam, no aguardo do retorno ao respeito coletivo, experenciaram a provável angústia do orientador/professor. Foi fascinante!

E a experiência foi fascinante para mim, pois, ao me retirar, consegui não abandoná-los. Apenas aguardava. Não me estressei. E quando eles conseguiam ficar presentes, continuávamos juntos. Nos momentos mais críticos, conversamos sobre o estado dos frágeis cubos de origami. Estavam amassados, feridos, desconfigurados. Um fiel retrato do estado de nossa coletividade :)

A brincadeira tem ainda mais dois níveis de dificuldade, que é fazer a roda e cantarolar (sem letra, mas com as mesmas orientações) e também em silêncio. Quem sabe numa próxima!

Vida longa e próspera!

(ASM)

quando a cisma vira cisne

No primeiro encontro para educadores do Programa Educativo da Fundação Iberê Camargo de 2012, escutei a encantadora fala de Ana Lúcia Beck sobre Leonilson, cearense de encantadora arte. Aproveitei minha experiência de encantamento e levei para a sala de aula uma reprodução de sua obra “O Inflexível”, presente no material educativo.

Leonilson
O inflexível
, 1983
tinta acrílica sobre lona
62 x 179 cm
col. João Sattamini, comodante MAC de Niterói
foto: Edouard Fraipont

Faço parte do projeto Cidade Escola – Núcleo FECI e encantamento é eixo. Os estudantes participam voluntariamente no turno inverso, portanto há compromisso, mas não obrigação. Comecei este ano a desenvolver um trabalho de geopoéticas em uma EMEF de Porto Alegre.

E é encantadora a “turma do cinema”, como são conhecidos devido à participação no trabalho a partir da linguagem audiovisual desenvolvido pelos educadores sociais Fabian Baldovino e Eduardo Textor desde o ano passado na escola, também no projeto Cidade Escola – Núcleo FECI.

Encantar é preciso. Se encantar consigo é um importante passo. E permitir-se ser encantado é precioso. O pato não se importa de virar cisne, nem de continuar pato, se for o caso. Em qualquer caso, ele ainda pode voar.

Com uma mistura de origami, geografia e poesia, voamos longe, mais precisamente para o infinito… e além, como bem citaram Buzz Lightyear ;)

Numa sala de aula sem mesas nem cadeiras (presente do acaso!) em que experimentei ter a palavra da mesma forma que os demais (já ‘tava na hora de eu colocar meu discurso em prática…), levantando a mão, fomos geopoéticos por adesão. Por encantamento.

A obra de Leonilson é fantástica, ensina muito sobre a desafiante arte de se comunicar com o outro. Encantar é preciso, ser flexível é imprescindível.

Sem cismas, cem cisnes.

(ASM)

Para o Bem, Yoshizawa!

Com 8 anos de idade, comecei a brincar de dobrar papel. O responsável pelo meu encantamento foi o aniversariante de hoje, Akira Yoshizawa, que completaria 101 anos.

Akira Yoshizawa em janeiro de 1980, por Peter Engel

Yoshizawa, Mestre Origamista, desenvolveu mais de 50.000 modelos, incluindo o pavão que me hipnotizou e fez amar esta arte. Em uma visita à Feira do Livro, há 20 anos, em Porto Alegre, encontrei este livro e desde então sou fascinada pela arte do origami.

Minha gratidão e admiração pelo aniversariante!

livro Brincando com Dobradura, vol.1

E não é que hoje é também o dia nacional da Poesia?! E ainda por cima chove em Porto Alegre, depois de MUITO tempo de seca! Dia abençoado!

Que dia geopoético…

:o)

(ASM)

ex|posição e autor|iz|ação

Somos seres criadores. Enquanto espécie, nossa principal função é a procriação. Interessante como há “criação” dentro desta palavra. E dentro desta há a “ação”. Criança é fruto de criar em aliança. Viver em sociedade é nossa sina, nosso sinal.

As Pinturas Aeropostais de Eugenio Dittborn são crias do céu e da terra. No céu, viajam como cartas. Na terra, viajam como ideias. A mutação é assegurada pela mutação: os envelopes mudam a cada destino, como peles que se renovam; as pinturas mudam a cada novo amigo. Suas obras são sempre visitas, assim como os visitantes dos espaços expositivos. Em exposição, as ideias são imunes à estagnação. Para enrijecer, é preciso esconder. O salvo-conduto das Pinturas Aeropostias é que à dobra se sucede a desdobra.

Ainda assim, é preciso aprofundar-se. No raso, não há quase nada. Há pouco volume externo nas Pinturas Aeropostais – sua estratégia entre dobras e desdobras nos aproxima de uma singularidade. Transitar entre um mundo e outro demanda muita energia – há que se liberar do supérfluo. Para então super fluir.

Para isso, é preciso autorizar-se. Um criador é um autor. Um ser sem autoria resume-se à reprodução. Reproduzir é diferente de criar. Na criação, não há desperdício de energia. Na reprodução, há a redução de seres a órgãos reprodutores. Na criação, há a comunhão de seres inteiros. Produção e criação se diferenciam pela ação.

Hannah Arendt (2005[1958]) nos lembra que a fonte do significado da vida humana é a ação, que depende inteiramente da constante presença de outros. Para a criação de uma criança, é preciso aliança de autorias.

Eu acreditava que era possível aprender sozinho. Mas há prender no aprender. Falto o “e” da experiência, “[…] um encontro ou uma relação com algo que se experimenta, que se prova” (LARROSA, 2002, p.25). Apreender, isto sim, é impossível na solidão.

A própria autorização demanda ação. Demanda encontro. Demanda vínculo. Quando criança, minha criação estava ligada à palavra e ao origami. Pela palavra, autorizei-me em exposição com a criação de estórias aos 10 anos de idade e desautorizei-me com uma humilhação orquestrada por uma professora. Passei, nos anos seguintes, a tentar me dobrar até sumir. Mas para reduzir o tamanho ao máximo, é preciso amassar.

Foi preciso voltar à exposição para me reautorizar. Foi preciso reencontrar a fonte do significado da vida humana. Foi preciso encontrar. Foi preciso agir. A criação deste blog foi uma das estratégias. Encontros virtuais de vínculos reais.

Fazer terapia foi outra estratégia. E é fundamental que o processo de cura seja ativo. Falar e falar faz o ar faltar. É preciso apreender o ouvir. Com o outro, isso é possível; apenas consigo, só se aprende.

Escrever para mim foi o início, mas a catarse foi o escrever enquanto diálogo. Com pausas para ouvir. Longas pausas. Foi preciso exercer a atividade de vender para retirar a venda, para ver com mais clareza. Trabalhar num cubo branco e encontrar tantas cores, tantas vozes. Escrever a dissertação de mestrado foi uma legítima ação para dizer. Para conversar. Para me autorizar. Para agir em autoria. E a participação de quatro professores foi essencial nesta ação.

E o origami? A autorização veio com o desdobramento através da experiência de mediação na mostra Eugenio Dittborn. O primeiro ensaio de autorização veio pela exposição de um mapa poético que fiz num momento em que a espontaneidade encontrou espaço para respirar. A celebração orquestrada por dois professores foi plena autorização, seguida pelo reforço autorizante de outra professora. A celebração coletiva foi ação de autoria. Celebrar a autoria do outro é permitir-se autoria, pois ela existe na relação. Na real ação.

E por que, diante de tantos encontros com tantos outros humanos, destacar a figura do professor?

“Bem, um professor tem uma atividade que deriva do Latim professus, ‘aquele que declarou em público’, do verbo profitare, ‘declarar publicamente, afirmar perante todos’, formado por pro-, ‘à frente’, mais fateri, ‘reconhecer, confessar’. Trata-se de uma pessoa que se declara apta a fazer determinada coisa – no caso, ensinar.”

(Origem Da Palavra – Site de Etimologia)

O professor que estimula o encontro é um vinculador de essências. É um catalisador de ação.

(ASM)

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Referências:
ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. 10ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005[1958].

LARROSA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. In: Revista Brasileira de Educação, Jan/Fev/Mar/Abr 2002, n° 19. p.20-28.

Site Origem da Palavra. Disponível em http://origemdapalavra.com.br/palavras/professor/

auto!ria

Que linda escola foi a experiência de trabalhar como mediadora/educadora na 8ª Bienal do Mercosul! Enquanto geógrafa metida à poetiza, ou poetiza metida à geógrafa – em plenos “Ensaios de Geopoética” -, descobri-me desdobrada. Depois de um trauma na escola, fui me dobrando e me dobrando, tentando diminuir de tamanho até desaparecer. Mas se tem algo que o ato de dobrar ensina é que há um número limitado de dobras possíveis. E Eugenio Dittborn, com suas Pinturas Aeropostais, ensinou-me a importância do desdobramento.

E, entre novos amigos, desdobramo-nos. E que riqueza se revelou!! O olho brilha diante de tanto encantamento! Quer coisa mais linda do que o deslumbramento com a beleza interna desencadeada pelo contato humano?! O artista e o curador ficaram em segundo plano? Pois digo que ficaram no MESMO plano! No espaço expositivo, éramos muitos a conversar: mediadores, visitantes, obras/artista, curadores. Uma Torre de Babel em pleno esforço comunicativo. Uma Ágora de mulheres e homens, idosos e crianças.

Somos todos educadores e aprendizes, vinculadores de diversidades. Autorizar-se é preciso: permitir-se autoria. Antes, auto! – ria. E o anonimato nos facilita autonomia.

A Bienal do Mercosul transcendeu fronteiras do Fórum Social Mundial. Foi uma Ação Humana. Encontramo-nos e presenciamos as múltiplas possibilidades.

E para fechar, abrimos!

(ASM)

in.verter

Subversão. Sub versos. Versos que vertem de dentro.

Durante o Curso de Formação de Mediadores, da Fundação Bienal do Mercosul, os versos que estavam dentro começaram a verter. Inspirada pelos professores Guilherme Vergara e Jessica Gogan, construí este mapa poético:

mapa construído a partir de diagramas de Kawasaki, William Gilbert e Zülal Aytüre-Scheele

Durante a experiência de mediação na mostra Eugenio Dittborn, os versos inundaram o espaço. Inspirada pelos vínculos com os colegas mediadores (“Família Gaidzinsky/Ramesky”), pela subversão poética de Maria Helena Gaidzinski e pelas inúmeras conversas com os mais diferentes visitantes e as Pinturas Aeropostais de Eugenio Dittborn, construí este kusudama:

kusudama construído a partir de diagramas de Sergei Afonkin e Tomoko Fuse, além dos tradicionais tsurus

Subversão coletiva. Versos que vertem através de vínculos. Vínculos que curam e nos devolvem o que há de mais belo em cada um de nós: a humanidade.

(ASM)

mapa do TeSoURU

8ª Bienal de Arte do Mercosul. Mostra Eugenio Dittborn. Suas Pinturas Aeropostais são verdadeiras caças ao tesouro: é preciso paciência, perseverança e muita curiosidade. O bonito disso é que qualquer um pode chegar ao tesouro, a algum tesouro. Sem tesouras! Dobras e desdobramentos.

Enquanto isso, na sala dos mediadores…

dobrado por Ana Mitchell * fotografado por Jean Sartief

Zen. (A)na. Mediação.

Mediação. Depois de dois meses de trabalho, minha mediação ficou mediana. Medio a “Ana”? Mon dieu!

No início era novidade, e o cansaço, presumo, transitou repetição. Presunto de mim.

“Un soldado, por ejemplo, al ver sobre la arena las huellas de un caballo, pasará inmediatamente del pensamiento de un caballo al de un jinete, y de ahí al de la guerra. Pero un campesino pasará del pensamiento del caballo al de un arado, un campo, etc.; y así cada uno pasará de un pensamiento a tal o cual otro, según se haya acostumbrado a unir y concatenar las imágenes de las cosas de tal o cual manera.”

Baruch Spinoza, Ética (In: envelope da obra 173, “Donde Todo Está Dos Veces”, 2007, de Eugenio Dittborn)

Vagabundeei na minha execução, a vigilância vacilou. Passei a mediar através de ideias fechadas, ainda que tenham se formado pelo fluir. Passei a ver os grupos como massas uniformes, não mais como ingredientes heterogêneos. Naufraguei. Catástrofe!

Catástrofe é um dos temas nas Pinturas Aeropostais de Eugenio Dittborn. Repetição, também. Passar, só se for em relação a transitar. O que não pode é passar com ferro. As dobras precisam estar lá, senão a viagem fica interrompida. Viagem interrompida, no entanto, também é tema recorrente.

Fragmentação. Fragmentei a experiência, Refém da minha própria fragmentação.

Como disse Eugenio Dittborn, “ver uma pintura aeropostal é ver entre duas viagens”. Origem e destino se confundem.

Para retomar a viagem, é preciso desertar de mim mesma. A mediação há que transitar pela meditação. O “t” que ingressa na “mediação” é de transitar. Praticar o Zen através da mediação: a repetição como se fosse algo sempre novo, a presença da abertura ao novo, a curiosidade. Mais do que a nova idade, a curiosa idade. Esta nunca envelhece, nem enrijece. Porque estudar o zen é estudar a si mesmo. Estudar a si mesmo é esquecer a si mesmo. Esquecer a si mesmo é estar uno com todos os seres.

“Las pinturas aeropostales tienen algo del Zen, por su elegancia y economía de medios (hacen algo a partir de casi nada), y por emplear en su favor redes preexistentes de energía y poder.”

Guy Brett, Nubes del Polvo (In: envelope da obra 107, “La XVII Historia del Rostro”, 1993, de Eugenio Dittborn)

Estar uno com todos os seres é fluir.

Nesta exposição, fui o Vagabundo, o Náufrago, o Refém e o Desertor.

Quantas viagens entre viagens.

Quantos desdobramentos em meio a tantas dobras.

(ASM)