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e por que não fugir?
e mostrar aos outros peixes voadores que podem partir
que o aquário é uma ilusão
tão pequena diante da imensidão
do oceano
=)

(ASM)

não há dinheiro que compre a liberdade
se não se está livre, não há realmente necessidades
só necessita de algo quem pode morrer
e para morrer, é preciso estar vivo

o preso está morto
e não o tem como saber

(ASM)

discurso.descurso

a sensação de que fiz o mais difícil
e o tudo ficou com os outros
inclusive o que mudou

com empregos, dinheiro, status quo
e ainda com justificativas
para extravasar o mau humor

a sensação de ter feito o certo
e o certo ser usado para maquiar o medo

mas o medo só acaba
quando o íntegro lhe ocupa o espaço

o resto é briga, raiva reprimida

os outros, percebo, não ficaram com tudo
só se o tudo fosse o nada

tanto discurso, sem alterar o curso

e o resultado de tudo isso,
ainda que eu esteja firme no que fiz,
é tristeza

(ASM)

Coragem é raiz de autor

Fiz o que fiz
porque era o que era
pra eu fazer

Foi coragem?
não saberia bem dizer
mas vamos ver:

A “coragem”,
raiz latina que é cor,
de coração,

colorida,
é a ação daqueles que,
com cor, agem

A coragem
é o fazer que é simples:
ser quem se é

Difícil é
fazer o que o coração
não quer fazer

Corajoso
não merece placa, nem quer,
pois só o é

E em vez de
“se ele fez, estou livre
de o fazer”

É ver, sentir
no profundo de cada um
“eu posso ser!”

Autorizar:
eis a função da coragem
lhe ensinar

(ASM)

tudo que passa pelo dinheiro cansa
emperra, provoca ânsia
tantos proto-colos
e o colo fica adiado
para que tudo fique comprovado
assinado e selado
cansado

(ASM)

poder é podre?

puxa puxa-saco
enche o saco
de ganância…

o poder não é podre
antes fosse!
e gerasse composto

é dor no pé
ilusão
e ânsia

sem dança
anula a lua
rende a esperança

(ASM)

ser.vento

o TER retém, porque não sabe criar
o SER é ar, está em todo lugar
o SER evita a representação, porque o TER procura lá a reprodução
o SER é a própria ação e se aninha na criação
o TER reproduz, porque mente
o SER procria, porque in.venta
o TER é a terra pela metade, é a falta de ar
o TER retém, é refém
o SER é fé

e além

amém

(ASM)

haicai XXII

perfeição brocha
porque infelizmente
não desabrocha

(ASM)

ex|posição e autor|iz|ação

Somos seres criadores. Enquanto espécie, nossa principal função é a procriação. Interessante como há “criação” dentro desta palavra. E dentro desta há a “ação”. Criança é fruto de criar em aliança. Viver em sociedade é nossa sina, nosso sinal.

As Pinturas Aeropostais de Eugenio Dittborn são crias do céu e da terra. No céu, viajam como cartas. Na terra, viajam como ideias. A mutação é assegurada pela mutação: os envelopes mudam a cada destino, como peles que se renovam; as pinturas mudam a cada novo amigo. Suas obras são sempre visitas, assim como os visitantes dos espaços expositivos. Em exposição, as ideias são imunes à estagnação. Para enrijecer, é preciso esconder. O salvo-conduto das Pinturas Aeropostias é que à dobra se sucede a desdobra.

Ainda assim, é preciso aprofundar-se. No raso, não há quase nada. Há pouco volume externo nas Pinturas Aeropostais – sua estratégia entre dobras e desdobras nos aproxima de uma singularidade. Transitar entre um mundo e outro demanda muita energia – há que se liberar do supérfluo. Para então super fluir.

Para isso, é preciso autorizar-se. Um criador é um autor. Um ser sem autoria resume-se à reprodução. Reproduzir é diferente de criar. Na criação, não há desperdício de energia. Na reprodução, há a redução de seres a órgãos reprodutores. Na criação, há a comunhão de seres inteiros. Produção e criação se diferenciam pela ação.

Hannah Arendt (2005[1958]) nos lembra que a fonte do significado da vida humana é a ação, que depende inteiramente da constante presença de outros. Para a criação de uma criança, é preciso aliança de autorias.

Eu acreditava que era possível aprender sozinho. Mas há prender no aprender. Falto o “e” da experiência, “[…] um encontro ou uma relação com algo que se experimenta, que se prova” (LARROSA, 2002, p.25). Apreender, isto sim, é impossível na solidão.

A própria autorização demanda ação. Demanda encontro. Demanda vínculo. Quando criança, minha criação estava ligada à palavra e ao origami. Pela palavra, autorizei-me em exposição com a criação de estórias aos 10 anos de idade e desautorizei-me com uma humilhação orquestrada por uma professora. Passei, nos anos seguintes, a tentar me dobrar até sumir. Mas para reduzir o tamanho ao máximo, é preciso amassar.

Foi preciso voltar à exposição para me reautorizar. Foi preciso reencontrar a fonte do significado da vida humana. Foi preciso encontrar. Foi preciso agir. A criação deste blog foi uma das estratégias. Encontros virtuais de vínculos reais.

Fazer terapia foi outra estratégia. E é fundamental que o processo de cura seja ativo. Falar e falar faz o ar faltar. É preciso apreender o ouvir. Com o outro, isso é possível; apenas consigo, só se aprende.

Escrever para mim foi o início, mas a catarse foi o escrever enquanto diálogo. Com pausas para ouvir. Longas pausas. Foi preciso exercer a atividade de vender para retirar a venda, para ver com mais clareza. Trabalhar num cubo branco e encontrar tantas cores, tantas vozes. Escrever a dissertação de mestrado foi uma legítima ação para dizer. Para conversar. Para me autorizar. Para agir em autoria. E a participação de quatro professores foi essencial nesta ação.

E o origami? A autorização veio com o desdobramento através da experiência de mediação na mostra Eugenio Dittborn. O primeiro ensaio de autorização veio pela exposição de um mapa poético que fiz num momento em que a espontaneidade encontrou espaço para respirar. A celebração orquestrada por dois professores foi plena autorização, seguida pelo reforço autorizante de outra professora. A celebração coletiva foi ação de autoria. Celebrar a autoria do outro é permitir-se autoria, pois ela existe na relação. Na real ação.

E por que, diante de tantos encontros com tantos outros humanos, destacar a figura do professor?

“Bem, um professor tem uma atividade que deriva do Latim professus, ‘aquele que declarou em público’, do verbo profitare, ‘declarar publicamente, afirmar perante todos’, formado por pro-, ‘à frente’, mais fateri, ‘reconhecer, confessar’. Trata-se de uma pessoa que se declara apta a fazer determinada coisa – no caso, ensinar.”

(Origem Da Palavra – Site de Etimologia)

O professor que estimula o encontro é um vinculador de essências. É um catalisador de ação.

(ASM)

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Referências:
ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. 10ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005[1958].

LARROSA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. In: Revista Brasileira de Educação, Jan/Fev/Mar/Abr 2002, n° 19. p.20-28.

Site Origem da Palavra. Disponível em http://origemdapalavra.com.br/palavras/professor/