doces lembranças :)

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Bailarina

E eu não conversei com aquela moça
da secretaria
de expressão sisuda e face bonita
“- Pois ela me repreenderia!”,
pensava eu na minha cotidiana
covardia

E no último dia,
quando o medo perde para a espontânea simpatia,
conversei com a moça para me despedir

E não é que ela em seguida se despiu
da face cinza e logo a vi colorida
e compartilhou, cheia de alegria,
que na verdade era ela
bailarina!

Fora a burocracia que aprisionou
sua beleza
Mas não há como murchar o perfume
de uma flor
e nem preenchê-la de tristeza

Basta um pouco de movimento para que refloresça
a semente de encanto
que é, em si,
essência

(ASM)

poética gestante

todo dia com a turminha
um mês inteiro desafia…

vais experenciando
e resolvendo conflitos

vais criando
e cultivando afetos

do silêncio de cada um
no primeiro dia

à exposição coletiva
quando finda a estadia

a surpresa do trabalho
num carinho inesperado:

entre tantas criações
desses jovens artesões

a espontânea nomeação:
“ops, sora, te chamei de mãe”

(ASM)

Utopia

Reconhecer os limites de uma ação num espaço é diferente de limitar um espaço premeditando uma ação. Enquanto um é reconhecimento, o outro é tentativa de condicionamento. Um acondicionamento. Um território. Eis como compreendo. Os limites são fundamentais no processo educativo, mas enquanto reconhecimento da presença. Enquanto conhecimento de. Quando são impostos limites, o aprendizado cede lugar ao condicionamento.

Não acredito que um seja mais importante do que o outro. O que eu acredito, o que eu experencio, é que um não existe na presença do outro. Como me disse certa vez um senhor no percurso (de ônibus coletivo) para o Centro (o bairro), “há que se amar sempre, sem abrir mão do cuidado consigo”. Posso colocar limites em consequências de ações alheias que me digam respeito se compreendo seus contextos. Há, assim, um reconhecimento dos meus limites, e não um condicionamento dos limites do outro.

Onde há expectativa, onde há desejo, onde as ações são regidas por motivações extrínsecas, há tentativa de condicionamento. O espaço, então, é acondicionamento. É território. Há incompreensão onde na maioria das vezes há boas intenções.

Ainda não aprendi uma forma de me comunicar que não desperte (e eu espere, no fundo) condicionamento. A minha vontade de mudar o mundo é maior do que minha consciência sobre a realidade. Viver em utopia pode ser bastante frustrante, mas desconfio que por pura incompreensão. Thomas Moore inventou este termo para expressar um não-lugar. Um lugar que, por ser perfeito, não existe.  Confio que utopia é, no fim, todo lugar. Sem necessidade de diferenciação, pois tudo está vinculado. Utopia é possível, assim me faz sentido, a partir desta compreensão.

Enquanto a vida humana se basear em territórios, a experiência da conectividade fica limitada. Assim compreendo. Mas ainda não compreendo em essência, intrinsecamente, pois não consigo me expressar de forma acolhedora. Minha comunicação ainda é, neste sentido, territorialista. Eis, agora, o limite de minha experiência.

Felizmente, todo cambia.

(ASM)

Tetis 4: Se Jesus era educador com 12…

…por que razão, senão mercenária, um@ educador@ deveria (conseguir) educar com 25, mesmo 15 ou muitas vezes 40, pessoas por vez?!

Segundo ações dos governantes (e nossas, que as mantemos com poder), escola no Brasil está mais próxima de regime carcerário. Como neste, há superlotação e um intervalo reservado ao banho de sol. Professor no Brasil é pago, em verdade, para cumprir funções que estão entre as de Carcereiro e Agente de Segurança Penitenciária – sem os sê-los e, talvez por isso, com salários inferiores. A questão é que, sendo assim, na escola professor não consegue ser educador e estudante não consegue estudar. Mais do que desvio de função, é desvio de forma. Fratura ética.

Os trabalhadores em escola (equipes de educadores&educandos, manutenção, alimentação) precisam conviver com o paradoxo do controle versus saber. Um não ocorre em concomitância ao outro:

Em uma reação similar à das células, os seres humanos também restringem seu comportamento de crescimento quando adotam o comportamento de proteção. […] A redistribuição das reservas de energia para a reação de proteção invariavelmente resulta na redução de crescimento.

In: Bruce Lipton, A biologia da crença (2007, Petit Ed., p.174)

Escola vivida para práticas territoriais impede o crescimento do ser. Para o que vivo em sala de aula, com relatos dos próprios estudantes (“[…] tem gente demais aqui”), Fernanda e Camila me apresentaram uma alternativa em prática:

Educar é mais do que preparar alunos para fazer exames, mais do que fazer decorar a tabuada, mais do que saber papaguear ou aplicar fórmulas matemáticas. É ajudar as crianças a entender o mundo, a realizarem-se como pessoas, muito para além do tempo da escolarização.

In: Projecto Educativo “Fazer a Ponte

Mais do que escolas virarem penitenciárias, presídios deveriam virar espaços educativos.

Não somos números, somos gente. Somos todos agentes de saber. E sabor.

(ASM)

Dos convites

Em uma hora mais do que propícia, este trabalho de Eneko chegou aos meus olhos. Se não é possível (nem justo) obrigar alguém a despertar o olhar, é mágico poder abrir janelas. Tão bonita quanto a ilustração, é a poesia do título: Y sin embargo se mueve. Afinal, todo cambia :)

La Professora, de Eneko

(ASM)

Mais do que palavras, foram os abraços.

Há tempos desconfio da retórica, mas sem abandoná-la. Para alguém com habilidade de raciocínio, a retórica é uma tentação, uma “solução fácil” em situações de conflito. “Fácil” para quem nunca havia trabalhado com crianças. No caso, eu.

Alguém experiente na retórica pode conseguir prender a atenção de desavisados, mas ninguém se engana com um abraço sincero. Um abraço forte, presente, não consegue ser ignorado nem pelo mais insensível. Hoje foi um dia de poucas palavras (minhas) e muitos abraços (deles).

Na tensão, no conflito, a minha retórica não tinha espaço. A frustração e a tristeza canalizaram toda energia para os olhos, que verteram. Como a chuva que precipita após o acumular tenso de energia.

Foram os abraços acolhedores das colegas-professoras e de alguns estudantes que apaziguaram a tensão que se instalava no meu coração e chovia da íris. Os abraços foram o colorido no céu no momento das últimas gotas no ar.

Arcos da íris.

(ASM)

Escravos de (dese)Jó

A geopoética em sala de aula de ontem foi muito interessante. Brincamos de “Escravos de Jó”, uma interessante brincadeira para experenciar atenção, ritmo, coletividade. No clima “Tênis versus Frescobol” a la Rubem Alves (belo texto aqui), os estudantes perceberam o quanto a falta de cooperação e, principalmente, o descuido com o outro (atenção que deveria ser consigo dispersada ao próximo, vulgo fofoca) atrapalha.

Começamos manufaturando as peças do jogo: balão/cubo de origami, modelo tradicional:

Uma das vantagens deste modelo é sua relativa facilidade de execução, além do quesito poeticamente “mágico”, o sopro. Dependendo do grau de perseverança de cada um, a vontade de desistir aparece, especialmente no passo 11. Aí vem outra vantagem, que é o de exercitar o encorajamento, pois com cuidado e atenção, todos conseguem fazer. Outra vantagem é a fragilidade do objeto, ao final.

Após cada um montar o seu cubo, sentamos em roda em uma grande mesa (poderia ser no chão, também). Revelei, então, que o jogo era este:

Mesmo com uma turma tão querida, as dificuldades logo apareceram. O que foi ótimo! Cada um pôde experenciar o fracasso do egoísmo e da fofoca (quando se preocupavam em julgar “quem errou”, ao invés de se preocuparem com a própria importância na roda), pois no fundo a vontade era de que a roda rodasse. Escravizados pelos seus desejos inconscientes (manipulados pelo ego), adiavam suas vontades despertas. Cada um era o próprio cubo, com vontade de ser esfera. Levamos a tarde toda para aperfeiçoar as arestas.

O Grito (“Skrik”, 1893), de Edvard Munch

Quando o tumulto aparecia, eu me afastava da roda e aguardava. Aos poucos, eles se acalmavam. O que eu percebi foi o comportamento automático, o hábito da briga. O hábito é uma ação não consciente, um dormir acordado. O meu silêncio funcionava, mas às vezes era preciso chamar suas atenções para o momento presente, para o acordar consciente. O grito funciona. Mas às custas das minhas cordas vocais e dos tímpanos alheios! Então, no fim, não funciona. Se alguém souber de uma forma de convidar (e não impor) as pessoas ao momento presente, fico muito grata pela informação!

Entre as primeiras tentativas, o intervalo (recreio) e o fim da experiência, conversamos sobre os conflitos territoriais envolvidos. A brincadeira não teve êxito, mas a experiência geopoética foi além das expectativas! Conversamos sobre o cansaço mental, a dor de cabeça com tanta gritaria, a impaciência com o outro e a necessidade de respeito (por enquanto, no âmbito da tolerância). Aqueles que se retiravam, no aguardo do retorno ao respeito coletivo, experenciaram a provável angústia do orientador/professor. Foi fascinante!

E a experiência foi fascinante para mim, pois, ao me retirar, consegui não abandoná-los. Apenas aguardava. Não me estressei. E quando eles conseguiam ficar presentes, continuávamos juntos. Nos momentos mais críticos, conversamos sobre o estado dos frágeis cubos de origami. Estavam amassados, feridos, desconfigurados. Um fiel retrato do estado de nossa coletividade :)

A brincadeira tem ainda mais dois níveis de dificuldade, que é fazer a roda e cantarolar (sem letra, mas com as mesmas orientações) e também em silêncio. Quem sabe numa próxima!

Vida longa e próspera!

(ASM)

quando a cisma vira cisne

No primeiro encontro para educadores do Programa Educativo da Fundação Iberê Camargo de 2012, escutei a encantadora fala de Ana Lúcia Beck sobre Leonilson, cearense de encantadora arte. Aproveitei minha experiência de encantamento e levei para a sala de aula uma reprodução de sua obra “O Inflexível”, presente no material educativo.

Leonilson
O inflexível
, 1983
tinta acrílica sobre lona
62 x 179 cm
col. João Sattamini, comodante MAC de Niterói
foto: Edouard Fraipont

Faço parte do projeto Cidade Escola – Núcleo FECI e encantamento é eixo. Os estudantes participam voluntariamente no turno inverso, portanto há compromisso, mas não obrigação. Comecei este ano a desenvolver um trabalho de geopoéticas em uma EMEF de Porto Alegre.

E é encantadora a “turma do cinema”, como são conhecidos devido à participação no trabalho a partir da linguagem audiovisual desenvolvido pelos educadores sociais Fabian Baldovino e Eduardo Textor desde o ano passado na escola, também no projeto Cidade Escola – Núcleo FECI.

Encantar é preciso. Se encantar consigo é um importante passo. E permitir-se ser encantado é precioso. O pato não se importa de virar cisne, nem de continuar pato, se for o caso. Em qualquer caso, ele ainda pode voar.

Com uma mistura de origami, geografia e poesia, voamos longe, mais precisamente para o infinito… e além, como bem citaram Buzz Lightyear ;)

Numa sala de aula sem mesas nem cadeiras (presente do acaso!) em que experimentei ter a palavra da mesma forma que os demais (já ‘tava na hora de eu colocar meu discurso em prática…), levantando a mão, fomos geopoéticos por adesão. Por encantamento.

A obra de Leonilson é fantástica, ensina muito sobre a desafiante arte de se comunicar com o outro. Encantar é preciso, ser flexível é imprescindível.

Sem cismas, cem cisnes.

(ASM)