supérfluo

se só me escuto na superfície
se só me atendo na superfície
se só me vejo na superfície
se só me amo na superfície

nem fluo, nem influo, só inflo

na superfície, vivo só.

(ASM)

sem embargos e engasgos

quando começamos a nos engajar,

[do francês ENGAGER
prometer
oferecer caução como garantia]

o mundo como o conhecemos já se ia
findou o tempo dos heróis e das euforias
fintou-nos a mais-valia

eis o espaço de um outro paradigma
a dádiva do dar, receber e retribuir
o vínculo Entre que está aqui

(ASM)

sopro

suave inesperado
da esperança praticada
pela força interna
que acolhe o ovo
e colhe o novo

expira lento
e inspira longo
sopro

(ASM)

Atalho para a Felicidade

Se para atingir o que quero é preciso fazer o que é certo,
fazendo o certo posso não atingir o que quero
E ao ser tão leal ao que quero, fazendo o que é certo,
presto um serviço ao belo em mim:
Abdico da raiva e impaciência por não atingir o que quero
vivendo, com antecedência, o único fim

(ASM)

Erva-D’Aninha

Era eu trepadeira
Que brotou em vida alheia

Pés na lua, cabeça em superfície
Manobrando artífices, enforcando alívios

Luz recebida, mas competindo
Com aqueles que me recebiam

Era eu trepadeira que nasceu
De cocô de passarinho

Em meu próprio ninho, decidi
Ser árvore e crescer

Raízes plantar, para da terra me alimentar
Abrir os braços, para a chuva molhar

Ser forte e com flores me enfeitar
Acolher beija-flor, bem-te-vi e borboleta

E de outras trepadeiras
Não me fazer acompanhar

(ASM)

gesso na mão, impulso do chão

Mestrado:
destra na pena,
a escrita ficou pequena

Kung Fu:
canhota de perna,
a escrita virou poema!

(ASM)

A Arte Guerreira de Shaolin na Visão Feminina

Olá!

Compartilho, aqui e através deste link, um texto que escrevi sobre minha experiência na Arte Marcial Shaolin do Norte, no Centro Sino Brasileiro.

De todas experiências que vivi, nunca imaginei trabalhar tanto o feminino quanto numa Arte Marcial!

Que bom que “todo cambia”
\\//_

* * *

Foi-me solicitado escrever um depoimento sobre minha experiência no Centro Sino-Brasileiro enquanto estudante mulher de Kung-Fu Shaolin do Norte.

É minha primeira experiência e sinto-me muito à vontade, pois o Kung-Fu, antes de ser Marcial, é uma Arte. As aulas são didáticas e há um cuidado com a compreensão de cada detalhe dos processos. O primeiro aprendizado foi o de respeitar os limites do meu corpo e, compreendendo sua linguagem, aprendi sobre sua força. A força do corpo é sábia: alia tanto a inteligência e a intuição, quanto a capacidade física de mutação no espaço. Embora o Kung-Fu seja uma arte marcial “neutra”, as possibilidades de aprofundamento interno a partir do desenvolvimento externo estão disponíveis. Como a simbologia do Tigre e do Dragão, corpo e mente transformam-se mutuamente. Em menos de um mês de aulas, meu corpo respondeu satisfatoriamente às práticas, com melhora postural e internalização do enraizamento.

A força da mulher fica evidente na possibilidade de gerar tanto mulheres, quanto homens. E esta força criativa se encontra, justamente, no centro do corpo. O eficiente desenvolvimento – e por que não dizer envolvimento? – de mulheres no Kung-Fu é resultado dessa força. Quando homens compreendem isso, posto que a completude entre feminino e masculino existe em todos nós, o enraizamento se completa.

Praticar Kung-Fu é, também, uma atividade meditativa, em que focamos nossa atenção em nosso corpo, em suas respostas a cada movimento. E este estado meditativo acelera nosso aprendizado, pois aperfeiçoamos nosso Kung-Fu vivendo no momento presente: “Aquele que tem a coragem de renunciar ao que lhe está próximo, conquista o que está distante” (I Ching – HUAN, quarta posição).

No Centro Sino-Brasileiro apreendi que o movimento introspectivo é tão importante quanto o movimento externo. Nosso corpo é portador de inteligência e também necessita do outro para aprender, para experienciar o espaço: “Estar em solidão significa estar consigo mesmo; e, portanto, o ato de pensar, embora possa ser a mais solitária das atividades, nunca é realizada inteiramente sem um parceiro e sem companhia” (Hannah Arendt, 1958).

Aprendemos a estar conosco e aprendemos a estar com os outros. Este aprendizado nos dá a segurança de que a Arte Marcial praticada é eficiente e sadia.

Em poucas palavras, são aulas que respeitam o corpo e disciplinam a mente através da compreensão, aliadas ao bom humor e ao companheirismo. Porque além de densas em conteúdo, as aulas são leves. Porque não há competição, mas vínculos. Estou satisfeita por estudar Kung-Fu nessas condições.

Porto Alegre, 2010.

(ASM) – 27 anos, praticante desde junho de 2010.

Referências:
ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. 10ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005[1958]. p.86.

WILHELM, Richard. (tradução do chinês para o alemão, introdução e comentários). I Ching: o livro das mutações. 20ªed. Tradução para o português de Alayde Mutzenbecher e Gustavo Alberto Corrêa Pinto. São Paulo: Ed. Pensamento, 2002. p.181.

vazio preenchido de ação

quando silenciei e agir foi o foco
(e assim abandonei o desejo de ser)
meu espírito enfim foi geógrafo

(ASM)

*
agradeço à Erica Brandt pela orientação e à Chana Tsai pela experiência!