Belo Monte

Importante documentário. Vida não é propriedade privada.

Para ler e assinar  a Petição de Raoni contra o projeto de Belo Monte (reproduzida a seguir):

http://www.raoni.com/atualidade-57.php

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Pedido de apoio internacional para o Cacique Raoni e os representantes dos povos indígenas do Xingu (Brasil), contra o projeto Belo Monte.

Pedido de apoio internacional para o Cacique Raoni e os representantes dos povos indígenas do Xingu (Brasil), contra o projeto Belo Monte.

Assinatura da petição de RAONI

O presidente Lula disse na semana passada que ele se preocupa com os índios e com a Amazônia, e que não quer ONGs internacionais falando contra Belo Monte. Nós não somos ONGs internacionais.

Nós, 62 lideranças indígenas das aldeias Bacajá, Mrotidjam, Kararaô, Terra-Wanga, Boa Vista Km 17, Tukamã, Kapoto, Moikarako, Aykre, Kiketrum, Potikro, Tukaia, Mentutire, Omekrankum, Cakamkubem e Pokaimone, já sofremos muitas invasões e ameaças. Quando os portugueses chegaram ao Brasil, nós índios já estávamos aqui e muitos morreram e perderam enormes territórios, perdemos muitos dos direitos que tínhamos, muitos perderam parte de suas culturas e outros povos sumiram completamente. Nosso açougue é o mato, nosso mercado é o rio. Não queremos mais que mexam nos rios do Xingu e nem ameacem mais nossas aldeias e nossas crianças, que vão crescer com nossa cultura.

Não aceitamos a hidrelétrica de Belo Monte porque entendemos que a usina só vai trazer mais destruição para nossa região. Não estamos pensando só no local onde querem construir a barragem, mas em toda a destruição que a barragem pode trazer no futuro: mais empresas, mais fazendas, mais invasões de terra, mais conflitos e mais barragem depois. Do jeito que o homem branco está fazendo, tudo será destruído muito rápido. Nós perguntamos: o que mais o governo quer? Pra que mais energia com tanta destruição?

Já fizemos muitas reuniões e grandes encontros contra Belo Monte, como em 1989 e 2008 em Altamira-PA, e em 2009 na Aldeia Piaraçu, nas quais muitas das lideranças daqui estiveram presentes. Já falamos pessoalmente para o presidente Lula que não queremos essa barragem, e ele nos prometeu que essa usina não seria enfiada goela abaixo. Já falamos também com a Eletronorte e Eletrobrás, com a Funai e com o Ibama. Já alertamos o governo que se essa barragem acontecer, vai ter guerra. O Governo não entendeu nosso recado e desafiou os povos indígenas de novo, falando que vai construir a barragem de qualquer jeito. Quando o presidente Lula fala isso, mostra que pouco está se importando com o que os povos indígenas falam, e que não conhece os nossos direitos. Um exemplo dessa falta de respeito é marcar o leilão de Belo Monte na semana dos povos indígenas.

Por isso nós, povos indígenas da região do Xingu, convidamos de novo o James Cameron e sua equipe, representantes do Movimento Xingu Vivo para Sempre (como o movimento de mulheres, ISA e CIMI, Amazon Watch e outras organizações). Queremos que nos ajudem a levar o nosso recado para o mundo inteiro e para os brasileiros, que ainda não conhecem e que não sabem o que está acontecendo no Xingu. Fizemos esse convite porque vemos que tem gente de muitos lugares do Brasil e estrangeiros que querem ajudar a proteger os povos indígenas e os territórios de nossos povos. Essas pessoas são muito bem-vindas entre nós.

Nós estamos aqui brigando pelo nosso povo, pelas nossas terras, pelas nossas florestas, pelos nossos rios, pelos nossos filhos e em honra aos nossos antepassados. Lutamos também pelo futuro do mundo, pois sabemos que essas florestas trazem benefícios não só para os índios, mas para o povo do Brasil e do mundo inteiro. Sabemos também que sem essas florestas, muitos povos irão sofrer muito mais, pois já estão sofrendo com o que já foi destruído até agora. Pois tudo está ligado, como o sangue que une uma família.

O mundo tem que saber o que está acontecendo aqui, perceber que destruindo as florestas e povos indígenas, estarão destruindo o mundo inteiro. Por isso não queremos Belo Monte. Belo Monte representa a destruição de nosso povo.

Premiers signataires de la pétition

Para encerrar, dizemos que estamos prontos, fortes, duros para lutar, e lembramos de um pedaço de uma carta que um parente indígena americano falou para o presidente deles muito tempo atrás: ” Só quando o homem branco destruir a floresta, matar todos os peixes, matar todos os animais e acabar com todos os rios, é que vão perceber que ninguém come dinheiro ” .

Autores : Cacique Bet Kamati Kayapó, Cacique Raoni Kayapó, Yakareti Juruna, representando 62 lideranças indígenas da Bacia do Xingu

Assinatura da petição de RAONI

Causa e e(fé)ito

As ações feitas em silêncio – embora nunca em solidão – são as que movimentam o planeta, literalmente.

Um exemplo é a força invisível e implacável que é a eletromagnética. A gravidade está sempre aí, sem nenhuma necessidade de afirmação. Existe, e é isso. E o vento, de que só percebemos suas evidências em manifestação? Até se pode comprovar com aparelhos, mas os resultados dos aparelhos são sempre representações do fato, não são o fato. Sempre há fé envolvida, mesmo na ciência.

Depois de 10 anos envolvida em pesquisas, aceito enfim a fé que sempre esteve envolvida. As constantes crises pelas quais passei durante a vivência acadêmica, agora eu penso, eram crises de fé. Eu não tinha fé na vida, muito menos na ciência. E sempre há fé envolvida. Mesmo na minha falta de fé, eu me afetava. Acho que falta afeto quando há falta de fé. Sem afeto na academia, eu não podia sentir fé na ciência. Mas havia uma fé na própria crise, será?

No fim das contas, a minha fé na ciência sempre esteve presente. E a fé na vida também. Era tudo uma questão de ponto de vista, um pequeno e essencial desajuste entre a fé que tenho na vida e a fé que tenho na ciência. Como se fossem duas forças opostas num cabo de guerra. Mas eis o pulo do gato (de Schrödinger): quando se trata de algo infinito, não há pontas. Infinito não tem começo, nem fim. E sendo seres infinitos, basta ajustar o ponto de vista, a consciência no eixo. Por isso é importante estar “com” na “ciência”. Tudo está conectado.

Se há algo realmente precioso que aprendi na Geografia, é a consciência multiescalar da realidade. Não há laboratório, não há isolamento possível, o laboratório é o mundo. Depois disso, é realmente muito difícil acreditar que uma verdade é toda verdade. Tudo é contexto. Consciência do contexto. Ciência e texto sem o “com” produzem meias mentiras que iludem meias verdades. A fé é a consciência de que há sempre algo além de nós e dentro de nós. É a percepção do infinito. É a chave para o fim da ilusão do cabo de guerra. Dar cabo da guerra, sem cabos nem generais.

Mesmo na Universidade, os maiores mestres que tive foram os mais silenciosos, os mais discretos. E ainda assim, os maiores. Desconfio que eles sabem do infinito, pois eles nos afetam com afeto. E despertam nossa fé.

(ASM)

down in the river to pray

Jesus nos ensinou a subverter
verter o que está abaixo
– río abajo río –
ver o outro lado
o encanto velado
velar a água
de cada ser

(ASM)

Dos convites

No que diz respeito ao pensamento, parece muito simples. Abandonar o supérfluo e fazer nosso trabalho. Sem desperdícios de energia. Ponto. Fico com a impressão de que não haverá mais nada a fazer depois do simples feito, que a vida deixará de fazer sentido, pois sem desafio. Mas eis o meu engano, pois como é difícil fazer o simples! A lógica não é suficiente.

Mas ouvi falar que os seres que se voltam à simplicidade se reconhecem.

A troca de sorrisos confirma.

E depois do desafio, do desfio, há o com fio, a costura.

E quando seres se reúnem, ainda que sem sentido, há sentidos.

Desconfio que é isso que faz tantos professores persistirem seus trabalhos. Um sorriso de alguém que se dispõe a aprender é uma mensagem direta, uma confirmação de que há que se despertar. Mas professores não são despertadores, e é engraçado que quanto mais barulho se faz, mais profundo é o sono de quem dorme. Desconfio que há a função soneca em todos despertadores.

Só desperta mesmo quem não precisa mais dormir, quem produziu energia suficiente para se manter acordado. Do contrário, permanece-se deitado. Mesmo que com o corpo erguido. Como compartilhou E.Dittborn, “Para levantar un objeto es preciso realizar un esfuerzo; si se abandona el objeto a si mesmo, cae al suelo” (R.Camby).

Professores não são despertadores. Professores são como os primeiros raios de sol que chegam pelo horizonte. E é o planeta quem rotaciona, permitindo-lhes a chegada. Senão, uma face nunca verá aurora, ainda que o sol esteja a brilhar. O sol não faz barulho, como despertador. O sol é um convite libertador. Sempre um convite, com vida.

Em conversas no museu, aprendi a convidar as pessoas. Com ouvido. Como me disse um querido professor, “ouvir é o mais importante” (A.Heidrich). Dar espaço para o silêncio que não invade, porque sem julgamentos camuflados, é realmente libertador. Nossa caminhada completa é sempre a meio caminho do próximo (I Ching). Com versos de ouvidos, o espaço é colorido. E o convite, tingido.

(ASM)

supérfluo

se só me escuto na superfície
se só me atendo na superfície
se só me vejo na superfície
se só me amo na superfície

nem fluo, nem influo, só inflo

na superfície, vivo só.

(ASM)

senciência :: Melancolia

cena do filme Melancholia, de Lars von Trier

Diferente da experiência com Anticristo (Lars von Trier, 2009), a sala de cinema em que assisti o filme Melancolia (Lars von Trier, 2011) estava repleta. Anticristo falava de questões externas que nos afetam internamente, enquanto Melancolia trata da influência de cada indivíduo no todo. Assistir este filme em companhia de tantas outras pessoas já foi o início da experiência.

Dia chuvoso, “mundo desabando sobre nossas cabeças”, chegamos ontem, eu e Camila – mesma amiga que compartilhou a experiência em 2009 -, atrasadas. Escolhi, no escuro, o lugar que menos incomodaria as pessoas que já estavam lá. Ironicamente, escolhi o lugar que mais me incomodaria. Sentei do lado de, depois percebi, um jovem casal em plenos romance e vontade de compartilhar entre si suas impressões. Passei metade do filme – o primeiro ato : Justine – pensando no que significa uma experiência num cinema, a caixa preta. Não é um lugar para interagir com os outros, não é? Foi o que pensei, incomodada.

Curiosamente, o primeiro ato mostra todo envolvimento com metódicos e rígidos ritos da personagem Claire (interpretada por Charlotte Gainsbourg), incapazes de manter um sorriso, ainda que falso, no rosto de Justine (interpretada por Kirsten Dunst).

Eis que ensaiei uma comunicação com meus vizinhos e não é que funcionou? Pedi gentilmente e fui gentilmente correspondida.

É, o mundo acaba no fim das contas. Mais do que o planeta, é o mundo que acaba, e com ele o conceito de vida como o conhecemos. E não é que aquele filme que acaba com o fim do mundo, com uma subida de créditos silenciosa, fez as pessoas conversarem entre si? Para mim, a obra cumpriu um importante papel: estimulou a comunicação. E o que é a melancolia senão a imersão dentro de si que impossibilita o comunicar-se, o relacionar-se?

Gostei da experiência. Se o filme não for vivido enquanto experiência – vivência do momento com plena atenção -, desconfio que serão horas desperdiçadas, pois passivas, sem criatividade.

A experiência com o filme convida a mudanças de paradigma. O que é vida, afinal? Será que vivemos ou nos permitimos guiar pela morte?

A propósito, hoje faz um lindo dia de sol por aqui. E as plantas estão que é um verde só, graças à chuva.

(ASM)

Sincronisciência

Na véspera, em um filme, um lírio de origami com uma mensagem lida ao desdobrá-lo: um pedido de encontro. A mulher invisível. Na manhã de hoje, um “aeropostale” de Eugenio Dittborn se desdobra e faz surgir uma esfera pública entre desconhecidos encerrados na vida privada, vidas cuja semelhança é a distância. Distância entre si, distância do reconhecimento. Pessoas invisíveis. Lindas ladras invisíveis. Uma moldura da esfera pública atual: um centro vazio. Esferas públicas que viajam longas distâncias, graças às dobras bem vincadas. Os vincos de uma dobradura são o que mantém seu vínculo e, assim, permitem o desdobramento. Dobras bem vincadas garantem, ao espírito paciente, redobrá-las. São elas que propagam a informação. A essência. A experiência da esfera pública. As dobras são comunicação. E o que seriam os cortes? “Em que consiste o instante da morte?”, perguntou Dittborn pela manhã. Dittborn fez kirigamis com seus vídeos, narrativas de cortes. Narrativas do encontro entre contradições. Cortes diferenciam, talvez mais intensamente, identificam. Cortam. Separam. Matam e morrem para se transfigurarem na retórica oposta. E sendo retóricas, inexistem certezas. “Em que consiste o instante da morte?” Comunicação entre vida e morte foi o tema da noite. O filme que há semanas me frustro em locar. Hoje ele estava disponível. Uma estória de encontros de retóricas contraditórias contada por Clint Eastwood. De pessoas que vivem distantes e se encontram através de mortes. De experiências de vida e morte. De pessoas que veem além do visível e são apartadas da esfera pública. Devem se esconder para manter a visão do que não se vê. Televisores cegos no vídeo de Dittborn. Eastwood narra a estória em francês e inglês. Dittborn. Dit, do francês “disse”, born, do inglês “nascido”. Mesmo a morte fala da vida. “Em que consiste o instante da morte?”

(ASM)

(s)word

 

“No primeiro estágio, homem e espada tornam-se o mesmo.
Até uma lâmina de grama pode ser uma arma letal.
No estágio seguinte, a espada reside não na mão, mas no coração.
Mesmo sem uma arma, o guerreiro pode matar seu inimigo a cem passos.
Mas o ideal máximo é quando a espada desaparece totalmente.
O guerreiro envolve tudo ao seu redor.
O desejo de matar não existe mais.
Só resta a paz.”

 

In: Herói, 2002 – Zhang Yimou