ser.vento

o TER retém, porque não sabe criar
o SER é ar, está em todo lugar
o SER evita a representação, porque o TER procura lá a reprodução
o SER é a própria ação e se aninha na criação
o TER reproduz, porque mente
o SER procria, porque in.venta
o TER é a terra pela metade, é a falta de ar
o TER retém, é refém
o SER é fé

e além

amém

(ASM)

haicai XXII

perfeição brocha
porque infelizmente
não desabrocha

(ASM)

O segredo de seus nomes

Antes de nascer, seu nome migrou entre terras celtas e, daqui, ouvi falar que seu significado corresponderia a terra. Uma nova pesquisa me levou ao significado de “igual a Deus”. Se Deus e Natureza são sinônimos, então não há conflitos. Ele cruzou o oceano para construir uma ponte. Em terra firme, conheceu uma jovem com nome de flor e este encontro gerou um fruto. Ele construiu a ponte, mas desonrou sua função. E seu nome próprio. Ele, desencontro, apenas sumiu. Partiu e abandonou a família que não assumiu. Retornou à família que o aguardava, ignorante, na outra margem do oceano. Um jovem, cujo nome significa “reunião de parentes ou de amigos”, assumiu a flor e o fruto. O fruto recebera um nome que significa “o que libertou”: amadurecido, decidiu assumir o nome de seu pai celta – terra. A tataraneta, cujo nome significa “cheia de graça”, não consegue amar aquela terra. E sofre. O significado não consegue encontrar sentido, a casa dos nomes. Mas seu nome também significa “aquela que se levantará novamente”. Ela então conversa com uma amiga de outras terras, cujo nome significa lua, tão influente nos cultivos. E o significado de todo ciclo passa a fazer sentido. O sentimento de desenraizamento da flor foi acolhido. E ela se sentiu curada, cheia de graça :)

(ASM)

ASM_2007_Rosinha1

*
para Rosa, Tertuliano, Liberato e Chana.

se.mente

que ironia a ingênua busca

quando enfim descubro o que queria ser
quando crescer

enfrento realidades de que o que se pode estagiar
não é considerado profissão…

que tragédia essa vida de mediação!

mediador
com
muita dor

e vontade no coração

(ASM)

ou|vi

Entre Arte e Geografia há tanta sintonia
que me calunio ao escolher entre uma ou outra

Que porcaria é a alusão à dicotomia!

Grita-me então Zaratustra
no meio de minha gagueira emotiva:

“Terei de principiar por lhes arrebentar os ouvidos para que aprendam a ouvir com os olhos?
“Terei de tocar címbalos e gritar como pregadores de quaresma?
“Ou só acreditarão no que consegue dizer o gago?

E ou.vi:
No Entre Geografia e Arte há Sinfonia.

(ASM)

Sem gato gago, é Bach no cravo!

Semana passada, o cravista Fernando Cordella compartilhou um evento na vida de J.S.Bach que me fez refletir bastante. A historinha é mais ou menos assim (com toda licença dramática que eu me permito, rs):

O Bach, novucho, era tri fã do trabalho de Dietrich Buxtehude. Bach ficou sabendo de um último concerto do músico, que já tava velhão, e pensou “bah, certo que eu tenho que ir!”. A distância dali até Lübeck, na Alemanha, equivale a mais ou menos a de Porto Alegre a Torres.

E Bach foi.

A pé!

Chegou lá na hora do concerto. Assistiu e depois conseguiu conversar com o Buxtehude, que pediu para ele improvisar um pouco e o Bach, danado que só, arrebentou a boca do balão. Bom, o cara (considerado um dos maiores do período barroco alemão) ficou absurdamente encantado com o virtuosismo do guri.

Como os empregos eram herdados naquela época e Buxtehude tava pendurando os dedos, Bach foi convidado na hora para assumir seu cargo de gerente geral (Werkmeister) e organista.

E assim, era o MELHOR emprego que um músico poderia querer naquela época.

o MELHOR salário

a MELHOR orquestra

o MELHOR lugar para se estar

Beleza, né?

Tá, daí o cara convidou o Bach para dormir lá, não ia fazer o guri voltar tudo a pé. Enquanto eles acertavam o contrato, veio uma condição.

Para assumir o cargo, Bach teria que se casar com a filha dele.

No dia seguinte, Buxtehude foi ao quarto que Bach estava alojado e só restava uma janela aberta, o guri fugiu que foi um risco! hehehe! Parece que, tempos depois, Haydn passou pelo mesmo processo. E a rapariga continuou encalhada e o o cargo em aberto.

O que eu mais fiquei pensando sobre tudo isso foi: Bach não se permitiu iludir com um destino que, parecendo o melhor, diminuía sua integridade interior. E nem ficou de mimimi, essa coisa de gato gago, foi logo embora daquela enrascada. Mesmo tendo caminhado tanto para chegar lá!

Não é para onde se vai, mas a consciência de que se é capaz de andar! Assim, ele pôde caminhar de novo ^^

E bah, era o Bach!

Sem gato gago, é Bach no cravo!

(ASM)

O que é grande no homem é ele ser uma ponte e não uma meta. O que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um declínio.

Friedrich Nietzsche, “Assim Falava Zaratustra”.

Bailarina

E eu não conversei com aquela moça
da secretaria
de expressão sisuda e face bonita
“- Pois ela me repreenderia!”,
pensava eu na minha cotidiana
covardia

E no último dia,
quando o medo perde para a espontânea simpatia,
conversei com a moça para me despedir

E não é que ela em seguida se despiu
da face cinza e logo a vi colorida
e compartilhou, cheia de alegria,
que na verdade era ela
bailarina!

Fora a burocracia que aprisionou
sua beleza
Mas não há como murchar o perfume
de uma flor
e nem preenchê-la de tristeza

Basta um pouco de movimento para que refloresça
a semente de encanto
que é, em si,
essência

(ASM)

poética gestante

todo dia com a turminha
um mês inteiro desafia…

vais experenciando
e resolvendo conflitos

vais criando
e cultivando afetos

do silêncio de cada um
no primeiro dia

à exposição coletiva
quando finda a estadia

a surpresa do trabalho
num carinho inesperado:

entre tantas criações
desses jovens artesões

a espontânea nomeação:
“ops, sora, te chamei de mãe”

(ASM)

Tetis 6: Em quarta dimensão, do quarto à carta

De um dos professores que me ensinam a dialogar, li grandes imagens. Memórias do quase nada. E fui em busca de linhas que registrei na infância. Foram poucas, e a maioria de desabafo, desesperos abafados na experiência. Os registros da minha infância não são de muita poesia. Ao imaginar as palavras do professor, tão carregadas de experiência, compreendi melhor o papel da palavra em minha vida – especialmente na experiência de torná-las públicas na fatídica quarta série do ensino fundamental. De sufocá-las no medo registrado em diários. Territórios. De libertá-las no exercício poético em ambiente acadêmico. Ambiências.

A quarta dimensão é a do tempo, a dimensão do movimento, cujo registro só pode ser feito a partir do passado. Registro que é tempo parado de experiência passada. Importantes foram as experiências que vivi que me levaram ao registro. Este, no entanto, passou a ser representação da minha própria experiência. E tudo confundi. A incompreensão levou-me à fragmentação, à territorialização de minhas experiências.

As estórias que passei a escrever na infância não eram História. Em uma viagem escolar que as precedeu, era eu espontaneidade dramática, uma criança criativa. Inventava jogos, que, sem pretensão, envolvia os colegas. Eu era então um centro onde as brincadeiras orbitavam. Aquela felicidade, vivida no tempo, era um néctar divino. Mas o tempo, logo entendi, era fugaz, era mais do que isso, era instantâneo. Era um não-lugar que era todo-lugar.

Era experimento saboreado, e mortal. As estórias que passei a escrever, depois, não eram História. Mas passaram a representá-la; num disfarce, eu pretendia enganar os deuses e tornar aquele sabor imortal. Com as estórias, eu queria beber o néctar da imortalidade do ego: a segurança do elogio do outro. Os limites bem definidos, territórios de afeto. Seriam meus colegas e minha professora a fonte divina. Minhas estórias, meu disfarce de divindade.

Por uma pequena ingenuidade da pueril escritora, as divindades perceberam meu embuste. A ficção brota da realidade, e para que esta não a ameaçasse, bastaria ficcioná-la. Assumir a representação. Mas eu queria a imortalidade real. E, assim, usei os nomes reais em estórias fictícias. Era eu a serpente mortal, o dragão que, ao entrar numa festa de seres divinos, buscava o reino imortal. Era eu infanta. Filha do rei, que também era eu, que não herdaria a coroa – minha cabeça, cortada, não lhe asseguraria assento. Minha garganta, por onde as estórias ganharam título de História, foi cortada pela professora. Histórias fatídicas. Ao beber daquele néctar, a esquizofrenia imortalizou-se em mim. Era eu Rahu, a cabeça nas alturas. E era eu também Ketu, o corpo que atingiu a terra e a fragmentou.

Passei a infância e o adolescer aspirando a biologia, a vida nos mares. Em algum lugar em mim, havia uma busca. Não eram os mares, mas as marés que me atraíam. Eram as marés que eu precisava compreender. A dança entre corpo e cabeça. Sem muito pensar, fui geografia estudar. Ainda fragmentados, Rahu e Ketu viveram a graduação em crise. Geografia Humana e Geografia Física. E a busca continuava, não por um outro curso, pois este continuava a ser navegado. A busca era por sua fluidez, que encontrava barragens em sua fragmentação. Ora mente, ora corpo. Fragmentos.

Este texto é uma conversa com Camila. Uma conversa a três. Uma criação. A conexão entre singularidades, que cria. Ambiências. Ano do Dragão, conexão entre corpo e mente. Com Camila, percebi que minhas melhores palavras foram escritas em cartas. As melhores palavras eram, em si, experiência. Camila foi a amiga adulta que compartilhou o gosto pela palavra experenciada desde a infância: a carta. Agora compreendo que fiquei com as piores palavras, os desabafos nos diários, e cultivei as melhores em cartas semeadas para amigos. Uma forma de publicar, privadamente, as palavras. Foi esta amiga, Camila, quem percebeu primeiro: meu gosto pelo quase nada era grande. A poesia não estava, fico feliz em saber, ausente.

Na busca pelo maestria de mim, cursei o mestrado de garganta cortada. As palavras não passavam de cortes. A culpa vinha da inconsciência da fragmentação. Após quatro anos, terminei a escrita dissertativa. De novo o quatro, a quarta dimensão. A expressão do movimento. A expressão do trabalho. Da conexão entre o privado, do quarto, e o público – através do quatro. O quarto que se tornou quatro através da arte, da criatividade, o três. A experiência, que surgia bienalmente na cidade, que vivi ao findar o quarto ano da pós-graduação. A experiência expositiva de cartas. As pinturas aeropostais que, cartas desdobradas, viraram jogo real. Castelo de príncipes e princesas sem coroas e muitas gargantas em conexão de palavras.

Uma conversa a quatro. Em quarta dimensão – mutante, fluida -, do quarto à carta, a experiência do vínculo. O orientador na maestria, professor, ensinou-me através da experiência do vínculo. Ironicamente, de suas ideias vinculares havia pouco registro.

Daquele momento público, não tenho muitos registros. Se todos viviam a experiência, sua limitação – o registro, a representação – não ganhava energia. Por isso foi tão energizante a experiência. A partir de uma carta, a dissertação, uma conversa a muitos. Os professores, os amigos, a família. Os vínculos. Por isso aquele espaço era ambiência, e não território. Os protocolos foram esquecidos, a criatividade estava aquecida. Não era uma defesa de mestrado, era uma roda de chimarrão – a serpente integral, conectiva, através do que flui pela garganta e aquece o corpo.

Adoeci ao tentar prender a arte naquele quarto ano do ensino fundamental. Voltei à vida naquele quarto ano do ensino pós-graduado, sem pretensões imortais. Era mais, era uma carta àqueles com quem eu não conseguia me comunicar. Na infância, a escrita foi uma tentativa de privatizar o público, a experiência vivida coletivamente a partir da minha espontânea criatividade. Uma prisão. A publicação do privado no texto em vida adulta foi um desprendimento das dificuldades encontradas, um assumir da mortalidade. Um convite.

E um dos professores que me ensinaram a dialogar a partir do convite conciliou Rahu e Ketu em mim: “uma artista, que é isso que tu és”. Mas não foi ali que esta conciliação foi feita, naquela roda. Ela foi feita hoje, ao conciliar o professor que eu conheci com o artista que convivi através de suas palavras. Geopoéticas dialógicas. Tão grande quase nada.

(ASM)